quinta-feira, 30 de abril de 2009

Tendências históricas do jornalismo brasileiro

Resenha publicada na revista Galáxia, do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, número 16, dezembro de 2008

História do jornalismo no Brasil, de Richard Romancini e Cláudia Lago. Florianópolis: Editora Insular, 2007

Os autores do livro têm razão quando afirmam na introdução do trabalho que os estudos sobre a história do jornalismo brasileiro vivem um paradoxo: são poucas as boas obras sobre o cenário mais amplo em que se desenvolveu a imprensa nacional, mas são muitas as pesquisas em torno de momentos específicos do jornalismo brasileiro, em especial aquelas dissertações e teses que são produzidas nos cursos de pós-graduação. Onde está o paradoxo? É possível supor que o volume já considerável de trabalhos monográficos acabasse resultando num esforço de síntese historiográfica e os leitores pudessem dispor de uma visão mais ampla das conjunturas que nortearam o desenvolvimento da imprensa brasileira, mas não é isso o que ocorre. É com essa intenção que o livro foi escrito.

Trata-se de contribuição valiosa que certamente vai preencher uma lacuna da qual todos se ressentem, em especial os professores e pesquisadores universitários que lidam com o tema, e o leitor interessado em compreender as várias dimensões do jornalismo brasileiro, suas relações com o Estado, com a economia, com a dinâmica sócio-cultural, com os padrões de referência em torno dos quais o campo profissional se articula e se desenvolve. O esforço se justifica: a imprensa brasileira, à semelhança de algumas outras que se surgiram na América Latina, é uma das principais protagonistas da vida política nacional, e não é segredo para ninguém que nos dias atuais chega mesmo a se configurar como um partido informal, tal é o peso que joga junto à sociedade civil e às instituições do Estado.

O trabalho de Richard Romancini e de Cláudia Lago procura ir às origens desse processo periodizando-o segundo as mutações da natureza tecno-operacional da imprensa, vinculando-as também a transformações institucionais mais amplas, fato que permite ao estudioso deixar de lado, desde logo, qualquer tentativa de explicar o fenômeno por si só como muitos tratados funcionalistas ainda insistem em fazer. O resultado é esclarecedor porque afirmações tais como "a imprensa é fruto do capitalismo" ou "o Estado Populista manipulou a imprensa", por exemplo, fartamente utilizadas como simplificadoras de contextos históricos bastante complexos em outras obras, ganham aqui uma fundamentação consistente ainda que sintética e didaticamente apresentada.

O ponto alto do livro é o capítulo que analisa "a redemocratização e as tendências do jornalismo no Brasil", quando o esvaziamento da densidade crítica que muitos veículos mostraram durante a ditadura militar é atribuído, em parte, "à potencial oligopolização do setor" midiático no âmbito do qual a imprensa tem quer ser vista. Parece residir na transição conservadora para a democracia a perda da substância crítica e contundente que a imprensa – em especial a "grande" imprensa – sustentou em outros períodos. As explicações para isso não são simples e os autores em nenhum momento recorrem a uma análise meramente episódica do fenômeno. Ao contrário: situam-no no contexto da modernização empresarial e tecnológica que os jornais passaram a viver paralelamente à abertura política, condição que indica a perda da substância informativa diante da complexa realidade social que o quadro econômico brasileiro gerou. Se cresceram como complexos empresariais, os jornais e outros veículos podem ter, ao mesmo tempo, reduzido sua dimensão pública.

Há, contudo, um problema de origem no trabalho de Romancini e Lago: metodologicamente, os autores operam com dois conceitos que precisam ser tratados de forma distinta – o de "imprensa" e o de "jornalismo". Essa talvez seja uma questão acadêmica que não retira do livro suas qualidades descritivas e analíticas, mas é preciso de alguma forma estabelecer uma distinção rigorosa entre um e outro, reservando-se para o primeiro uma compreensão mais atinada às estruturas organizacionais e propriamente econômicas dos jornais. Para o segundo – o de "jornalismo" -, um entendimento de sua natureza narrativa e de seus vínculos com a produção discursiva dos profissionais da imprensa. Mas esse é um outro desafio que o livro não se propõe enfrentar, embora abra caminho para essa diferenciação.

Por dois motivos História do jornalismo no Brasil chega em boa hora. Primeiro, porque está sendo lançado no momento em que parece consolidada a tendência da construção de abordagens teóricas específicas sobre o campo, quando emergem no cenário universitário linhas de pesquisa que preservam sua identidade epistemológica, com todas as conseqüências metodológicas decorrentes disso. Segundo, porque a proliferação dos cursos de graduação em jornalismo precisa estar ancorada em boa bibliografia, antes que continue se dando de forma ainda mais desqualificada. Nos dois casos, a compreensão do processo histórico do objeto é ferramenta indispensável para pesquisadores e para professores.

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