domingo, 3 de maio de 2009

Augusto Boal (1931-2009)

A morte de Augusto Boal neste fim de semana me fez lembrar do impacto que suas teses sobre o teatro tiveram sobre meus alunos nos anos 80. Eu ministrava um curso de História da Cultura para estudantes de jornalismo e um dos tópicos do programa previa uma análise sobre duas correntes em que se debatia a dramaturgia brasileira no início do processo de modernização acelerada pela qual o país passou nas décadas de 40 e 50. A coisa toda não era difícil de ser explicada mas exigia um grau acurado de interpretação pois que também nas correntes estéticas refletia-se o paradoxo da nossa contemporaneidade, isto é, a convivência tensionada entre perspectivas elitistas e formais (nos estratos onde a renda se concentra) e visões mais generosas da sociedade manifestadas por intelectuais que se viam como seus porta-vozes (olhos postos onde a renda não se concentra).

No caso do teatro, essa dicotomia que nos acompanha nos últimos 60 anos traduzia-se em duas propostas: a do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e a do Teatro de Arena. A primeira, estetizante e sobriamente européia, era marcada pela ênfase no bom gosto e no requinte, disposta com isso a seduzir a burguesia paulista, seu principal mercado. Raramente o TBC encenou algum autor nacional e agora mesmo eu me recordo de apenas um nome que teve esse privilégio: Abílio Pereira de Almeida. Já o Teatro de Arena era visto nas nossas aulas como herdeiro de alguma tradição iconoclasta do modernismo brasileiro, mas principalmente como um reduto de atores e diretores que se aglutinavam por motivos ideológicos, com simpatia por autores com perfil nacionalista e politicamente mais comprometidos com as mudanças sociais cuja discussão a conjuntura do populismo estimulava.

Faço um parênteses: nunca houve essa assimetria esquemática entre "autores nacionais" e "autores estrangeiros" que minha lembrança de Augusto Boal faz crer. O que havia, e ainda há, eram perspectivas dramatúrgicas mais universais e mais particularistas, complexo que tanto podia enfeixar autores estrangeiros quanto autores brasileiros. A distinção, a rigor, se fazia em torno do núcleo sobre o qual o enredo da peça se desenvolvia – se mais ou menos próximo da realidade transcendente do Homem e das contradições sociais concretas.

Pois bem, foi nesse Teatro de Arena que Augusto Boal surgiu com toda a sua garra e sensibilidade quando o grupo decidiu encenar a peça de Gianfrancesco Guarnieri, Eles não usam Black-tie. Trata-se de um momento divisório na história da cultura brasileira uma vez que o texto de Guarnieri, sob a perspectiva de Boal, permitiu que o Arena recuperasse uma linha dramatúrgica que vinha de Nelson Rodrigues, acrescentando a ela uma disposição de revelar a realidade brasileira em toda a sua dramaticidade e extensão.

Não foi pouca coisa, segundo entendo. Para Boal e para toda a geração de atores e autores que se reuniam em torno dele, a experiência do Arena dava uma indicação primordial para o próprio teatro nacional: seu compromisso com o conflito social brasileiro. Neste caso, Eles não usam Black-tie, ao lado do experimentalismo cênico que o Arena permitia, trazia para o centro do palco o operariado e seus conflitos políticos radicais.

Dizem os biógrafos de Boal que foi com essa perspectiva que ele salvou o Teatro de Arena e o próprio teatro brasileiro. Encenações de Oduvaldo Vianna Filho, Roberto Freire, Sartre, Chico de Assis tiveram o condão de energizar a cena teatral e abrir o caminho para todas as experiências que se sucederam. Augusto Boal praticamente participou de todas elas ou esteve indiretamente envolvido com elas pela inspiração que permitiu com sua sensibilidade dramatúrgica e poética. Uma carreira que envolveu as iniciativas do Oficina, o Grupo Opinião, a Primeira Feira Paulista de Opinião, o Teatro do Oprimido, de maneira que não é possível entender o teatro brasileiro contemporâneo sem entender a trajetória de Boal. Um exemplo quase único de um artista que soube associar a reflexão teórico-experimental à sua prática.

Citado na enciclopédia Itaú Cultural, Yan Michalski diz que "até o golpe de 1964, a atuação de Augusto Boal à frente do Teatro de Arena foi decisiva para forjar o perfil dos mais importantes passos que o teatro brasileiro deu na virada entre as décadas de 1950 e 1960. Uma privilegiada combinação entre profundos conhecimentos especializados e uma visão progressista da função social do teatro conferiu-lhe, nessa fase, uma destacada posição de liderança. Entre o golpe e a sua saída para o exílio, essa liderança transferiu-se para o campo da resistência contra o arbítrio, e foi exercida com coragem e determinação. No exílio, reciclando a sua ação para um terreno intermediário entre teatro e pedagogia, ele lançou teses e métodos que encontraram significativa receptividade pelo mundo afora, e fizeram dele o homem de teatro brasileiro mais conhecido e respeitado fora do seu país". Boal foi nomeado pela UNESCO, em 2009, embaixador mundial do teatro.

A ditadura fez com Boal a mesma coisa que fez com muitos outros expoentes do pensamento radical brasileiro: obrigou-os a deixar o país, quando não os humilhou por aqui mesmo. Mas nem isso desanimou o criador do Teatro dos Oprimidos. Tão logo retornou do exílio, mostrou a mesma energia. Mas essa história é para uma outra vez.

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