domingo, 3 de maio de 2009

Gay Talese de volta...

O Estadão deste domingo traz uma excelente entrevista com Gay Talese, um dos principais nomes do jornalismo contemporâneo. Mais do que Tom Wolfe, Talese é considerado o guru do que se convencionou chamar de new journalism e seu último livro – Vida de Escritor (Cia das Letras) – está sendo lançado nesta semana.

A entrevista, também disponível em áudio com legendas em português no portal do Estadão, dá conta de dois temas que ocupam parte das discussões nos cursos de jornalismo. O primeiro é o da recuperação da reportagem como narrativa pessoal do jornalista, uma espécie de perspectiva impressionista dos fatos investigados, na fronteira com a expressividade literária. Talese tornou-se uma das referências desse estilo e toda a sua produção, já editada em livros no Brasil, ficou marcada por essas características. Na minha opinião, A mulher do Próximo (Cia das Letras), uma investigação sobre a revolução sexual ocorrida nos Estados Unidos nos anos 50 e 60, é talvez a sua obra mais brilhante.

O segundo tema da entrevista é a crise que atinge os jornais tradicionais. Uma matéria da Veja da semana passada, para que se fique apenas num exemplo, dá conta de que o New York Times, só no primeiro trimestre deste ano, teve um prejuízo de 74,5 milhões de dólares, resultado da mistura fatal da crise econômica com o impacto que a internet provoca nos veículos impressos (leia aqui). Quando o assunto é o Times, Talese fala com a autoridade de quem não só trabalhou nos anos de ouro do jornal mas também como o repórter que escreveu a sua história (O reino e o poder, Cia das Letras). Segundo ele, o NYT está pagando pelo erro de não ter preservado sua identidade ao disponibilizar seu conteúdo gratuitamente pela internet, explicação da qual se desdobra um tema polêmico: não há espaço para o jornalismo de qualidade na corrida que marca a produção noticiosa na rede. Em outras palavras: se quiserem sobreviver, os jornais impressos terão que reafirmar suas características, evitando dissolvê-las no universo das tecnologias virtuais da informação jornalística.

O retorno de Talese com Vida de Escritor e a própria repercussão de sua entrevista podem intensificar a discussão em torno desses dois temas.

Um comentário:

Natássia Meirelles disse...

oi, Professor... Estávamos discutindo na Metodista sobre essa crise que atinge os jornais. A democratizaçao da internet é um lance extraordinário, porém a seleçao da boa informaçao ainda é muito difícil. Espero que a publicidade consiga avançar o suficiente para acompanhar os bons informantes e as pessoas dominarem a impulsividade do clique para o local certo. hehehe. Adorei a dica. O Gay Talese é demais.