sexta-feira, 22 de maio de 2009

Literatura e cinema


Muito bom o dossiê da Cult sobre a literatura norte-americana publicado no número 135 da revista. Entre os vários artigos, me chama a atenção o de Mauro Rosso sobre a eterna discussão motivada pela pergunta que dá título ao texto: “o filme é melhor que o livro?”. A polêmica, ainda que pareça bizantina, está assentada em duas ou três perspectivas de origens diferentes, todas importantes para entender a dimensão do problema.

A primeira, que, neste caso, além de primeira é primordial, diz respeito a uma longa tradição, nos Estados Unidos em especial, de transposição de obras literárias para o formato do filme, fenômeno do qual resultaram evidências bastante concretas: o cenário da ficção literária, que é multitemático e consistente em termos culturais e de mercado, tornou-se celeiro de diversos filmes (alguns deles clássicos, apontados por Rosso), invariavelmente pelas mesmas razões: a pertinência da abordagem de temas dada pela sensibilidade ou pelo oportunismo dos autores como substância que justificou a adaptação da obra. A receita do êxito de um livro não garantiu o sucesso da bilheteria, nem sempre; mas o caminho trilhado pelos adaptadores deixou a marca de uma quase hibridação entre os dois gêneros.

A outra perspectiva que alimenta a discussão é motivada pela própria reação do público e pelo efeito que tem sobre os estudos que o debate provoca no meio acadêmico. Rosso cita o professor da UCLA, Randal Johnson, para dar conta da questão. Segundo o pesquisador, a exigência de “fidelidade da adaptação cinematográfica à obra literária originária pode resultar em julgamentos superficiais que frequentemente valorizam a obra literária em detrimento da adaptação, sem uma reflexão mais profunda”. Vem dessa concepção mimética o julgamento do público: o filme é bom se conseguiu manter inalterados os elementos formais de um livro. Julgamento injusto, como se vê – a fidelidade estrita à obra literária não é e nunca foi garantia da igual densidade conceitual com que o tema é tratado em sua origem, ao contrário. Certamente por isso é que Stanley Kubrick, lembrado no artigo, afirmava que "livro é livro, filme é filme".

O último aspecto é o que me parece mais determinante no estudo do problema. A obra literária e o filme nos põem diante de duas linguagens diferentes marcadas pela natureza estruturante que o suporte técnico tem nas possibilidades narrativas que oferecem a uma e a outro. Penso que Rosso não deu a essa questão a profundidade que ela merece, embora seu artigo faça referência apropriada a um de seus elementos: a natureza estática da literatura e o caráter dinâmico do cinema, dimensões responsáveis por processos diferentes de produção de sentidos pelo público. Eu acrescentaria à discussão um outro elemento: o da menor abertura que a mediação tecnológica da obra cinematográfica oferece ao espectador em contraposição à maior abertura que a obra literária permite ao leitor.

A polêmica não é nova e já foi posta em debate especialmente por Umberto Eco, mas não é demais lembrar que o conceito de fidelidade esbarra nessa diferença estrutural existente entre os dois gêneros, de onde se deduz que a idéia de transposição literal de um para outro – do livro para o filme – inevitavelmente conduziria a uma inadequação de natureza cognitiva (como de fato conduz quando isso é tentado) que frustraria (e frustra) o público. Quer dizer, o cinema está comprometido com processos narrativos que advém de suas características e não se obriga a contar as histórias no ritmo e nos limites lineares do texto literário; apela para uma instância de percepção do espectador de origem diversa do apelo que é feito pelo livro.

Nada disso, no entanto, é irreconciliável e os roteiristas estão aí nesse papel fundamental que é o de levar em conta essas diferenças conceituais, mas a comparação que não incorpora as dimensões características da literatura e do cinema esbarra na relatividade da resposta objetiva à saudável provocação de Rosso: se o filme é melhor que o livro? Talvez sim, talvez não...

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