domingo, 24 de maio de 2009

Novo jornalismo. Onde está o problema?

Dia desses assisti outra vez Capote, o belo filme de Bennett Miller sobre a vida do escritor norteamericano feito em 2005. Todo mundo que lida com o jornalismo conhece a história da criação da novela de não-ficção que se transformou num dos livros mais importantes da literatura contemporânea, A sangue frio; e não há muita coisa a ser acrescentada nem aos fatos que cercam a motivação do livro nem à maneira como Truman Capote se dispôs a narrar aquilo que ele próprio definiu como "o encontro entre duas Américas" ocorrido no crime cometido no Kansas em 1956. O que me parece ainda não suficientemente explicado e estudado são as condições gerais que permitiram o surgimento, a partir do livro, de uma nova configuração da narrativa jornalística capaz de motivar muito estudantes a abraçar a profissão e a encontrar nela um canal de expressão de sua individualidade, do seu jeito próprio de olhar e "denunciar" o mundo.

Pois lá no filme de Miller, numa cena rápida, quando Capote exercita seu imensurável ego e sua vaidade perante um grupo de participantes de uma festinha de intelectuais no Village de Nova York, um elemento me parece dilatar a compreensão da época: a música de fundo, uma execução de John Coltrane que moldura o ambiente cool em que tudo aquilo acontece. Onde está a relação entre uma coisa e outra? Está na fina percepção do diretor do filme em associar a nova expressividade musical da época - o blue modal que tomou conta da música norteamericana nos anos 50 e 60 - às também novas posturas estético-conceituais presentes em outros campos e que se caracterizaram pela psicologia da revelação e da subjetividade da arte moderna no pós-guerra. Tudo se passa como se uma sensação de esgotamento das formas convencionais das narrativas tomasse conta da cultura e de seus produtores, impulso que acabou atingindo também a literatura e o jornalismo.

Tenho insistido com os alunos que me procuram para discutir o lugar que o "novo jornalismo" - ou o "jornalismo literário" como alguns preferem - ocupa na cena contemporânea da produção da reportagem para que estudem esse contexto mais amplo de natureza cultural cuja lógica se situa fora do âmbito estrito do jornalismo. A idéia é permitir não a diluição do fenômeno que querem estudar no território ambivalente e escorregadio da cultura, mas assegurar que o entendimento dessas propostas que surgiram nos anos 50 e 60 - cuja influência nunca mais deixou de ser sentida - se dê paralelamente à compreensão de processos conceituais mais amplos dos quais a autoria da composição jornalística não se livrou.

Guardadas todas as devidas proporções, o estudo desses fenômenos é de uma forte atualidade porque eles parecem remeter, nos dias de hoje, à superação dessa verdadeira camisa de força criada pela presença dominante do jornalismo informativo como gênero que mais corresponde ao dinamismo da sociedade tecnológica. Não é um mero acaso que o interesse, portanto, se volte para o estudo e para a prática da produção textual de outra linhagem como se a comprovação de sua presença atestasse que nem tudo está perdido para o grande texto e para grande interpretação do repórter. É possível que seja isso mesmo, mas a fundamentação desse argumento precisa ser procurada também no jornalismo, claro, mas em especial nas tendências culturais contemporâneas, nas múltiplas tensões e perspectivas abertas pelas novas formas de expressão e na presença incontornável que a realidade e seus conflitos têm sobre as narrativas. É por isso que vale a pena retornar a Capote e à sua época.

2 comentários:

Diana Assennato Botello disse...

Faro, bom te achar por aqui.
Gostei bastante da reflexão. Me deixou pensando se o novo jornalismo não se transformou em uma espécie de gênero, como uma crônica, quando deveria ter o papel de um estilo. Talvez não se permita ao jornalismo a perda de tempo com uma reflexão mais humanista (do ponto de vista da vivência). Acho que é uma espécie de 'bypass' intelectual. Só temos estômago para diregir leads e olhe lá.

Anônimo disse...

O imperativo do consumo rápido da mídia realmente nos aprisiona nos textos sem vida do jornalismo puramente informativo. Mas o importante é sabermos que existem alternativas, que passam pelas lições do new journalism, e não desistirmos delas apesar das dificuldades de se colocá-las em prática. Abraço!

Bruno Pessa, mestrando da UMESP