sexta-feira, 5 de junho de 2009

Barrar o interesse privado na Amazônia

Todos deveriam assitir o excelente documentário Corporation, de Mark Achbar, Jennifer Aboot e Joel Bakan. Mais do que a denúncia contundente sobre todo o conjunto de malefícios de natureza social que as empresas em escala global de atuação causam aos diversos países, é a decorrência da ação predatória sobre o meio ambiente do planeta que permanece como o resultado mais significativo do filme. A certa altura do documentário, o ex-CEO de uma megacorporação que atua na área da petroquímica fala sobre a existência de um imposto geracional que é sistematicamente reproduzido pelas grandes corporações, isto é, uma transferência, para o futuro, do ônus da deterioração ambiental praticada no presente. É esse mesmo executivo quem faz uma das metáforas mais belas do filme: a dificuldade em se perceber a queda progressiva quando o planador ainda está no alto. Ao se aproximar do solo é que a ilusão se desfaz e o choque do pouso se torna irreversível, ainda que suave. A relação com o tema ambiental é clara: a contundência da realidade, quando é iminente, não pode ser contornada.

O comentário vem a propósito da polêmica em torno da Medida Provisória que legaliza 67,4 milhões de hectares de terras públicas da União na Amazônia, para doação ou venda sem licitação, até o limite de 1.500 hectares. Na verdade, trata-se da oficialização de um saque aprovado pelo Senado com brechas que, segundo a ex-ministra Marina Silva (Leia aqui matéria da Folha Online sobre o assunto), podem abrir caminho para os que se apropriaram ilegalmente de terras e que, com a MP, poderiam ser anistiados. O que é visto como uma solução para o problema da legalização da posse da terra pode se tornar mais uma porteira aberta para o desmatamento da região. O problema, no entanto, me parece mais grave e de fundo: essa persistente transferência para as mãos dos interesses privados de setores de sensível interesse público atemporal (ou geracionais, para usar o conceito que retiro de Corporation), como é o caso do meio ambiente, do modelo de desenvolvimento industrial, da educação superior. O resultado, do ponto de vista da governabilidade, é sempre positivo, porque se trata da fixação de um convívio ameno e desprovido de grandes conflitos que o governo federal estabelece com os setores mais conservadores do Legislativo, entre eles os interesses ruralistas, e a sensação é que estamos todos num voo suave. No entanto, sob o aspecto das determinações de um projeto estratégico para o futuro, é o interesse público que está sendo comprometido. Não é o caso de inundarmos as caixas postais dos ministérios, do gabinete da presidência, dos parlamentares, com mensagens que repudiem a possibilidade de que a MP seja sancionada na íntegra por Lula?

Um comentário:

Juliana disse...

Eu fiquei chocada quando ouvi a notícia, eu espero sinceramente que a pauta não caia e persista na mídia. Nós jornalistas temos que servir para alguma coisa em tempos de uma crise como essa. É um absurdo como para confortar determinadas parcelas da sociedade e ganhar futuros votos as pessoas estejam tão dispostas a destruir o planeta! Já temos uma preocupação medíocre com a natureza, e ainda saímos nos entregando assim? Questões na natureza deveriam ser proibidas de serem tratadas por um grupo tão pequeno que acha que floresta é arbusto e o mais perto que já chegou da natureza foi o alface no prato.