sábado, 13 de junho de 2009

Ensino de jornalismo: reflexão e experimentação


Terminei meu curso de Teoria de Jornalismo deste semestre com a análise de um texto de Alain Accardo publicado no Le Monde em 2000. O artigo discute duas ordens de condicionamento pelas quais os profissionais de imprensa passam no desenvolvimento de suas atividades: de um lado, as que são decorrentes dos veículos nos quais operam, em especial orientações de natureza editorial relativas às matérias de maior sensibilidade política; de outro, as que são conseqüência das demandas culturais do próprio público no qual os veículos encontram seu nicho de credibilidade e de mercado. Para Accardo, os jornalistas “não estão maquiavelicamente preocupados em manipular o público para aumentar o lucro dos acionistas das empresas em que trabalham”, mas vivem uma atuação que também através de uma série de condicionamentos quase imperceptíveis nem os deixa suspeitar que os fundamentos de sua profissão podem estar em xeque. O debate em torno do assunto, como era esperado, tomou direções diversas e penso mesmo que não chegamos a amarrar – e isso nem seria possível – qualquer conclusão categórica em torno dele.

O que me chamou a atenção, no entanto, foi a reflexão dos alunos sobre essa dinâmica que rejeita uma explicação simplista sobre o ofício que estão em vias de exercer. Foram inúmeros aqueles que, ao mesmo tempo em que se mostravam preocupados com os desafios que os espera, manifestavam uma firme determinação em aprofundar sua reflexão ao lado de um forte aprimoramento de suas habilidades técnicas. Em determinado momento, as discussões caminharam para as relações entre o curso e o chamado "mercado". A dúvida é razoável: o que nos prepara melhor, perguntam, o aprendizado operacional ou o aprofundamento de natureza téorico-conceitual que nos permite compreender os dilemas da profissão?

Ponderei com os estudantes em torno do compromisso que a Universidade tem com dois pilares que justificam sua existência: a reflexão e a experimentação. Ela não estará apta a dar conta deles se imaginar que seu espaço é o da reprodução mimética das práticas empresariais e mercantis. Isso a levaria, como o demonstram inúmeros exemplos brasileiros, a se tornar um espaço de adestramento e de reiteração das questões apresentadas no texto de Accardo, inviabilizando a formação de profissionais que superem ou entendam as determinações que atuam sobre seu trabalho. Estou convencido de que só uma sólida formação teórica e o permanente exercício da inovação experimental é que asseguram a formação do bom jornalista.

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