sexta-feira, 5 de junho de 2009

Habermas

O dossiê da Cult deste mês é sobre Jürgen Habermas. A pretexto da comemoração dos 80 anos do filósofo, que a excelente matéria de Luiz Bernardo Leite Araujo chama, com razão, de "o filósofo vivo mais importante da Alemanha", a revista recupera os passos mais importantes da trajetória intelectual do último remanescente da Escola de Frankfurt cuja presença no cenário do pensamento contemporâneo continua marcante. A rigor, Habermas só não é um marco decisivo nas Ciências Sociais e, em especial, na Comunicação, para quem não o leu. Os que se aventuraram a consultar em algum momento de seus estudos a obra com a qual é mais conhecido no Brasil, Mudança estrutural na esfera pública (1962), certamente enriqueceram seu entendimento sobre as determinações sócio-culturais dos processos comunicativos em geral e sobre a imprensa em particular.

Recentemente fui levado a retornar a Habermas em consequência de um denso debate que se seguiu à defesa de tese de Henrienne Barbosa no programa de pós-graduação da Umesp. Em determinado momento da explanação dos fundamentos teóricos de seu trabalho de doutorado, Henrienne referiu-se com muita propriedade ao diálogo que Habermas manteve, em 2005, com o então cardeal Joseph Ratzinger em torno da possibilidade de uma perspectiva comum a ser oferecida para o que então se identificava como "o derrotismo da razão moderna". Para ambos, mas especialmente para o pensador frankfurtiano - que se define como um "ateu metódico" -, esse derrotismo decorre não apenas do "cientificismo positivista", mas também de uma "modernização decarrilada" que obstaculiza o primado da Moral e da Justiça, ao lado das quais estariam tanto os ateus quanto os católicos (leia a íntegra da discussão entre Ratzinger e Habermas em la factoria)

Mais ou menos na linha do pensamento de Boaventura de Sousa Santos, o desafio desta etapa da modernidade estaria na contenção das perspectivas sedutoras do futuro e na dilatação das possibilidades humanizadoras do presente, de forma a ampliar os espaços da racionalidade tecnocientífica mas com base numa aproximação com a "consciência teológica das grandes religiões mundiais". Esse diálogo entre duas correntes de pensamento aparentemente antagônicas dá a dimensão do intelectual público em que Habermas se transformou, que chama para si a responsabilidade de propor um reesclarecimento da modernidade contra o declínio do iluminismo. É preciso conhecê-lo em profundidade para que se aproveite de suas contribuições toda a proposta de ação que elas representam para a mudança do mundo contemporâneo.

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