sábado, 27 de junho de 2009

A hora da verdade para os cursos de Jornalismo


Em meio à profusão de manifestações que se seguiram à decisão do STF de acabar com a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício da profissão, vai ficando claro que as atenções começam a se voltar para os cursos: afinal, se tivessem conseguido vincular sua existência de maneira imprescindível ao exercício do jornalismo, é pouco provável que sua exigência pudesse ser questionada por quem quer que fosse. A deliberação do Supremo, por conta disso, contou (e ainda conta) com um importante aliado: a opinião generalizada, até mesmo entre os próprios jornalistas, de que os cursos são desnecessários, ou seja, não é preciso cursar Jornalismo para ser jornalista. Isso é verdade ou estamos diante de um argumento fundado na vulgaridade do senso comum e na lógica que inspirou o combate que as empresas moveram contra a obrigatoriedade do diploma?

A resposta é difícil, claro, mas penso que, esfriados os ânimos, é preciso apontar para aquela que considero a fragilidade maior dos cursos de Jornalismo: a baixa densidade reflexiva e cultural que eles oferecem em contraposição à banalidade das experiências práticas exigidas dos alunos. Com exceção de algumas poucas estruturas curriculares que conheço (não mais que 2 ou 3), até agora os cursos devem sua montagem a um conjunto dispersivo de disciplinas teóricas que raramente se articulam nos eixos dos campos do conhecimento e a um outro conjunto de exercícios laboratoriais de pouca inventividade. Como as exigências de perfil aplicado são facilmente atendidas pelas práticas do "mercado", o conceito institucional do curso sempre ficou em desvantagem naquilo que, em minha opinião, constitui-se no diferencial da formação universitária: a consistência do preparo intelectual do egresso. Não é uma simples casualidade que centenas de estudantes de Jornalismo foram buscar, em outras graduações cursadas simultaneamente ou como projeto para o futuro, o complemento que lhes faltava.

Essa comissão, que deve aprontar em breve uma nova proposta de diretrizes curriculares, tem uma boa oportunidade de indicar um caminho que permita a superação desse déficit crônico com o qual convivemos até agora. Arrisco dizer que ela estará cometendo um erro fatal se julgar que a dimensão humanística do futuro jornalista e sua habilidade em lidar com as questões culturais do seu tempo pode ceder espaço para um conceito instrumental e praticista do currículo.

Um comentário:

Ronie disse...

O senhor acha que essa decisão do STF será um amargo remédio para as IES melhorarem a formação dos estudantes de jornalismo, oferecendo mais densidade reflexiva e cultural em seus cursos, ou será uma 'química' catalisadora dessa liquefação das práticas do jornalismo? Eu sinceramente acho que há um desânimo entre os jornalistas e os profissionais que pode causar conformismo, mas espero que cause revolta.