sábado, 27 de junho de 2009

Produção científica

Três textos disponíveis na coluna ao lado (em Produção científica: qualidade versus quantidade) dão conta dos dilemas que os pesquisadores brasileiros, em especial aqueles vinculados à Universidade, estão enfrentando. O tom geral é dado por Olgária Mattos, que identifica uma mudança na vida acadêmica capaz de condicionar o próprio conceito da reflexão científica e cultural. Apanhados em cheio pela idéia de um produtivismo a todo custo, os docentes e os alunos estão fazendo fazendo tábula raza da dimensão - eu diria narrativa - do conhecimento científico. Estamos em meio a uma vaga empirista que tem nos intermináveis e inconsistentes estudos de caso, sem precisão conceitual ou metodológica, a razão de ser da própria instituição universitária. Pouco importa se o estado da arte nos vários campos do conhecimento avança. O importante é emplacar em algum periódico e garantir os níveis quantitativos dos relatórios da Capes.

Mas as consequências específicas dessa conjuntura aparecem nos outros textos - um, da revista Pesquisa; outro, do suplemento EU& Fim de Semana do jornal Valor Econômico. Depois de passar pelo ar meio entristecido de Olgária, vale a pena ler os dois. Como agora não é mais o âmbito da circulação dos periódicos o que os classifica no Sistema Qualis, mas o índice de citação dos trabalhos publicados em outras produções, a comunidade científica vive um ambiente de intensa selvageria com consequências predatórias para o esforço editorial de inúmeros programas de pós-graduação: simplesmente ninguém quer publicar senão nas revistas melhor situadas nos novos estratos.

As consequências podem representar a marginalização de qualquer artigo que não atenda os requisitos do prestígio, mais do que os requisitos da consistência científica. O resultado é o que já se vê, pelo menos no campo das Ciências Sociais Aplicadas: artifícios estatísticos (como mostra o suplemento do Valor) e um distanciamento cada vez maior entre os principais fenômenos da área da Comunicação e a reflexão acadêmica que se faz sobre eles; muito malabarismo, poucos resultados. Em outras palavras: a produção cresce, mas pode estar crescendo sobre um extraordinário vazio conceitual e cognitivo que deixa longe o entendimento sobre a natureza mesma dos fenômenos que estuda.

Um comentário:

Ademar Oliveira de Lima disse...

Estive por aqui em visita ao seu blog!! Abraços Ademar!!