quarta-feira, 15 de julho de 2009

Diversidade e riqueza no twitter

Neste momento, tenho exatos 346 seguidores no twitter, a maioria formada por alunos e alunas da Metodista e da Puc. No início, confesso que tinha muitas restrições a uma certa precariedade discursiva que observava nas postagens de todos e não fosse pelas ponderações de uma amiga jornalista que insistia nas potecialidades desse tipo de rede, acho que teria deixado a coisa pra lá.

Minha percepção sobre isso mudou bastante. Primeiro, em razão das notícias dando conta das guerrilhas de comunicação que o twitter tem permitido. No Brasil e no exterior, já são diversos os casos de amplificação de informações mobilizadoras que encontram na plataforma das micropostagens um instrumento tão dinâmico quanto democrático. Os exemplos são muitos, mas me parece que o episódio recente do acompanhamento da votação do STF sobre o fim da exigência de diploma para jornalistas é sintomático: nem bem os juízes acabavam de proferir seus votos e a notícia já estava na rede. No final da sessão, quando saiu a sentença, já havia do lado de fora do Supremo, por todo o país, um intenso movimento em torno do assunto. Não discuto o acerto desta ou daquela posição, mas o fato concreto da disseminação da notícia e da opinião; isso, sim, é muito positivo.

O segundo motivo que me deixa olhar o twitter com outra perspectiva está mesmo no conteúdo das postagens do cotidiano, essas que levam a sério o propósito do twitter e de outras redes ("o que vc está fazendo agora"). Descemos aí a uma hiperindividualidade reveladora de quase tudo: tem gente que reclama do frio, da solidão, da fome, do trabalho, fala de sexo, diz palavrão, dá conselhos - um mural meio radiográfico de ansiedades, de expectativas que abragem uma disposição de escancaramento que só mesmo os "meus diários" das meninas do passado é que permitiam - se é que permitiam. Pois é aí que eu quero chegar.

Meus 346 seguidores fazem tudo isso - e haja paciência para ler tanta "angústia existencial" - mas registram um outro conjunto de experiências - vou chamar de culturais - que os envolvem: bandas que ouvem, filmes que assistem, livros que leem, notícias sobre fatos variados da vida brasileira que comentam; um universo de percepções de uma variedade tão grande quanto a sua complexidade. E não é que o @qualquercoisa, que eu apenas li lamentando sobre uma ficada que não deu em nada, mostra ser possuidor de um refinado gosto musical? E a @fulana, depois de mal-dizer um fim de semana trancada em casa, me sai com um comentário preciso e denso sobre um filme?

Sei perfeitamente que isso tudo pode ser passageiro e que há em meio aos frequentadores do twitter os malandros de sempre: empresas, messiânicos, oportunistas do esporte e da política. Mas seria muita ingenuidade imaginar que a rede é seletiva e que pode ser condenada por conta desse tipo de frequência - ela é absolutamente incontrolável. O que eu quero dizer é que esse instantâneo caótico, desordenado e anárquico das micropostagens no twitter tem me ensinado muito sobre o universo das pulsões intelectuais dos meus seguidores e tenho sido surpreendido não só com a sua diversidade, mas também com a sua riqueza.

7 comentários:

Rafael disse...

Vale lembrar a plena liberdade para escolhermos quem "seguir". Mesmo que a presença de empresas em ferramentas sociais exija alguns cuidados e muita reflexão, acho que há espaço para um relacionamento saudável com usuários e - muito importante - de interesse mútuo. Os "malandros" não terão a vida fácil de sempre e deveriam estar preocupados com a sólida evolução das redes sociais. Sempre haverá quem goste das malandragens mas os que desaprovam iniciativas inadequadas ou desleais de qualquer natureza também estão prontos para disparar seus caracteres a qualquer momento.

Marcia disse...

meu único compromisso no twitter é meu bem-estar (bota hiperindividualidade nisso). se estou seguindo alguém que me cansa, deixo de seguir.

e confesso: os comentários do cotidiano, os engraçados, os angustiados, são os que mais me interessam. a humanidade deles me interessa.

Marcio Hasegava disse...

Uma das avaliações mais sensatas que eu já vi sobre essa rede social. De fato, responder "o que você está fazendo?" não resume todas as possibilidades desta ferramenta, que é tão simples que a dinâmica é única para cada usuário, podendo ser chata ou fenomenal dependendo de quem você segue.

Inês disse...

Gostei muito do texto. Eu acho que essas redes tem uma diversidade bem maior do que a gente percebe na primeira olhada.

Citei o post no meu blog, espero que não se importe.

Anônimo disse...

o seu comentário a respeito disso já evidencia uma mudança importante que o twitter trouxe: a possibilidade de um professor conhecer seus alunos. ou seja, a relação passa a ser mais bilateral, mais horizontal, mais pessoal... e os alunos também podem conhecer o lado mais humano e prosaico do professor, desmistificando-o... é uma pena que isso ainda só aconteça na esfera virtual.

Mari Zendron disse...

Querido professor Faro,

Fui sua aluna na PUC até 2007. Achei há pouco seu blog e que belo texto sobre o twitter, hein. Confesso que ainda não abri minha conta no microblog por não saber direito o que fazer com ela, mas depois disso que li, acho que vou repensar sobre o assunto.

Anônimo disse...

I enjoyed reading your blog. Keep it that way.