segunda-feira, 6 de julho de 2009

Flip 2009: jornalismo cultural em débito

A cobertura da Flip já foi objeto das pesquisas que desenvolvo na Metodista sobre o jornalismo cultural. Nas edições anteriores do evento identifiquei um conjunto de matérias que procuravam esclarecer o universo da literatura contemporânea a partir da análise das obras cujos autores estavam em Paraty.

Minha conclusão até 2008: os jornalistas que acompanharam a feira em outros anos ofereceram aos leitores de seus veículos um bom roteiro de natureza estético-conceitual que enriquecia a compreensão do público sobre o foco principal daquilo que rolava na cidade A leitura que fiz então permitia a conclusão de que estava diante de um consistente exemplo da dimensão mais profunda do gênero, ainda que fosse preciso relevar uma certa e inevitável propensão ao tratamento mítico (e espetacularizado) dos personagens centrais do acontecimento.

Em 2009, no entanto, minha percepção sobre a Flip sofreu algumas mudanças. A primeira delas vem ancorada numa constatação que me parece bastante evidente: a feira acabou se tornando um território mais das editoras do que da Literatura. Penso que fica confirmada a tese de Alberto Dines já postada neste blog: a pressão empresarial que se faz em torno dos lançamentos literários cria embaraços para a cobertura jornalística.

A segunda mudança diz respeito à maneira como o mundo das celebridades literárias foi comemorado pela imprensa. Explico: ninguém tem nada contra a exposição das excentricidades dos escritores, mas a falta de comedimento com que isso é tratado nas coberturas especializadas inverte o núcleo noticioso que a Flip tem para o jornalismo cultural.

No final das contas, tenho dúvidas sobre o significado que adquiriu para o público a profusão de matérias que transformaram a vida privada de expoentes da literatura contemporânea em objeto de um culto massivo que acabou por ofuscar o sentido de sua obra.

2 comentários:

Chico Bicudo disse...

Farão, meu camarada, estive na FLIP pela primeira vez, um pouco trabalhando, outro tanto me divertindo. E posso dizer que a Festa Literária foi muito mais do que os relatos produzidos pela nossa imprensa grande. Acompanhei algumas palestras, na íntegra, e pude depois comparar o que vi e ouvi com as narrativas jornalísticas. A palestra do Dawkins foi de uma profundidade ímpar, analisando o embate entre ciência e religião. Mas deu-se destaque para a camisa florida que ele usou. O Gay Talese deu uma aula de jornalismo, de apuração, de pesquisa, de construção de personagens. As manchetes destacaram o casamento dele, a relação com a esposa. O Chico Buarque, estranhamente, falou bastante - e muito bem - sobre o processo de criação de "Leite Derramado". Pinçaram uma frase dele ("escrever é uma chatice"), que, tirada do contexto, parece indicar que para ele a tarefa é enfadonha, quando ele quis dizer justamente que escrever dá trabalho, exige persistência e paciência. Isso sem falar nas picuinhas do casal francês, nas aventuras dançarinas do Simon Schama. Ou seja: os holofotes estiveram quase sempre direcionados para o estranho, o grotesco, o bizarro, o folclórico, a invasão da vida privada, em detrimento da informação e da reflexão. Sintomas da sociedade do espetáculo. Uma pena! Abração e parabéns pelo blog,
FRAN

Ronie disse...

O senhor está se referindo à Sophie Calle? O que o senhor pensa a respeito do trabalho dela que foi abordado na Flip? Olha esse vídeo:

http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowVideos.action?destaque.idGuidSelect=4BFCE404AF964A3E870E35F0EC0D287B

Grande Abraço Mestre