quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Adiamento das aulas: um erro atrás do outro

Não fosse pelas implicações sanitárias que tem e o episódio do adiamento do reinício das aulas teria tudo para se transformar numa dessas comédias de erros que bem poderia ser aproveitada pelo Saramago. Até agora, não há uma única justificativa consensual para a medida e provavelmente vamos chegar à data limite desse recesso (dia 17?) sem qualquer certeza de que o caos provocado nas escolas tenha valido a pena.

O que me parece estar por trás dessa trapalhada é o corre-corre político que anuncia a disputa eleitoral de 2010, porque evidentemente ninguém quer a batata quente da gripe suína nas mãos, muito menos os estados governados pelo PSDB. Medidas de urgência, bem ao sabor da maneira como a mídia as trata, fazem bem para o eleitorado e, pelo menos em São Paulo, todas foram tomadas na contra-mão das mensagens "tranquilizadoras" emitidas pelo Ministério da Saúde. O resultado é o que se vê: ao lado do bate-boca travado na imprensa entre as autoridades do setor, a população desorientada e a desordem instalada no funcionamento do semestre letivo.

Infelizmente, em situações desse tipo, quem paga o pato são os professores e as professoras que estão diante de uma equação difícil de resolver: tiveram, à sua revelia, duas semanas de recesso, caso não tenham sido convocados para cumprir seus horários normais de aula mesmo sem os alunos. Mas, em qualquer dos dois casos, começam a perceber que o preço cobrado por isso vai sair caro: a extensão das aulas por um período indefinido, em alguns casos com o sacrifício, desde já, de sábados inteiros de reposição. Como muitos docentes (em São Paulo o percentual é de 40% nas escolas particulares) lecionam em mais de um lugar, qualquer calendário é impraticável.

Até onde consigo perceber, a única solução é a redução da carga letiva do semestre - para que a precipitação que provocou tudo isso não acabe desembocando numa desordem didático-pedagógica e operacional generalizada.

4 comentários:

Demétrio de Azeredo Soster disse...

O que mais me impressiona, - considerando que a gripe de fato existe, ainda que seja chinfrim -, é que se trata de um fenômeno também de natureza midiática este, ou seja, que é resultado da mesma conjunção que outro dia falava em Febre Amarela como uma catástrofe, para ficarmos no mais próximo, mas que não considera, sabe-se lá porque, a tragédia do crack e o fato de a aids ser antes uma doença crônica que o horror que era há poucos dias (esta percepção tranqüilizaria muita gente, imagino). E, como tal, merece reflexão crítica antes de qualquer medida mais ampla, caso, como você bem ilustra, do protelamento das aulas. Menos mal, e quem diz isso é Verônica, minha filha de 13, que aqui no Sul os dias têm sido gelados. É uma época para dormir até mais tarde, então.

Fernanda Martins disse...

Acho bastante justificável o adiamento da volta às aulas. Principalmente quando não se enxerga isso como uma PRORROGAÇÃO das férias, o que se fato, não é.

A medida foi bastante ponderada por uma organização médica, que está tão perdida quanto a população, afinal essa é uma doença totalmente atípica, onde se morre em pouquíssimo tempo e se coloca em cheque tudo que se sabia anteriormente sobre os outros tipos de gripe. Constantemente usam o termo virulência para se tratar deste vírus. O termo define bem o tipo de epidemia que estamos enfrentando. A capacidade de destruição do vírus é feroz. Ele destrói em pouco tempo o tecido celular.

Posso citar os casos aqui do ABC, em que uma menina de 1 ano e 6 meses morreu e sete dias depois sua vizinha também foi enterrada por conta do vírus. Irmãs morrem quase em sequência e há um caos danado por conta do medicamento usado. Já se fala em falta de estoque e em medo de uma possível resistência do Influenza.

Acho sadio o adiamento da volta às aulas, principalmente em colocar 100 alunos vindos de todos os cantos e pegando todos os tipos de meio de transporte. E ainda digo mais, o Brasil está tão atrasado que foi o último país a aderir a medida.

Essa gripe não é brincadeira e pouco se sabe sobre ela até então.

Qualquer cuidado é pouco. Acho ainda que a mídia nem expõe tudo que poderia expor pelo medo de causar pânico.

Roberta Roque (aluna da PUC) disse...

Também achei um absurdo essa história das aulas voltarem apenas no dia 17. Até parece que com essa medida nós estamos mais prevenidos.
Porque assim como muitos outros alunos, professores e funcionários, eu continuo utilizando transporte público, frequentando espaços públicos e com grande número de pessoas. Todos estamos expostos ao vírus, não apenas da gripe A, mas a muito outros...

Acho isso uma paranóia geral, isso sim.

Elsa Villon disse...

De fato, o adiamento do reinício das aulas me parece um tanto quanto exagerado. Atrapalha totalmente o calendário acadêmico e não é justificado.

De nada adianta adiar as aulas, os shoppings continuam lotados e creio eu que é mais fácil contrair A(H1N1)num shopping do que numa sala de aula.

Mas está ai, a doença infecto-contágiosa letal que assola a mídia, e, contra-gosto, nosso cotidiano. Depois das paranóicas matérias do Fantástico sobre a hepatite, fez-se a gripe suína e viu a mídia que isso, era bom.