sábado, 22 de agosto de 2009

Democracia incompleta

O preço que o Brasil paga por sua tradição política conciliadora é o que está aí: uma democracia permanentemente posta sob a dúvida da descrença (leia aqui o artigo de Thiago Romero sobre o assunto) e sistematicamente condenada pelos bolsões de corrupção das elites que sobreviveram a todas as mudanças recentes na história do país. Nem mesmo um governo de forte extração popular, como é o de Lula, conseguiu escapar dessa armadilha: não pode sacrificar a governabilidade que consegue com a maioria parlamentar; em troca disso, convive e garante a vida de figuras como a de Sarney. O resultado é o pior possível porque essa lógica de afago com aquilo que há de mais atrasado no sistema de poder corrói não propriamente a popularidade do presidente, mas todo o conjunto de promessas e princípios sobre os quais construiu a liderança de sua identidade.

No entanto, imaginar que isso se restringe ao Congresso e aos "políticos" é esquecer a rede de favorecimentos ao poder econômico e a convivência com os traços do modelo concentrador da renda que subsiste na vida brasileira e de todos os benefícios que empresários de todos os setores retiram disso. No Senado, isso assume a forma de desvio de recursos; mas na vida econômica são os subsídios de toda ordem, fraudes nas concorrências públicas, bancos que praticam agiotagem descarada, uma econonomia cartelizada que tem muito pouco de liberal. Também em direção a esses setores o governo é obrigado a dirigir acenos de convivência sem os quais não consegue administrar a vida econômica do país. Na verdade, segundo entendo, é todo o conjunto das elites que se encontra contaminado, sem um claro projeto consistente de construção nacional: nas suas mãos, continuamos a ser um grande feudo, uma grande propriedade particular.

Digo tudo isso porque os episódios que culminaram com as dificuldades enfrentadas por Lula na semana passada - marcadas na 6a. feira pelo esforço em manter Mercadante na liderança do PT no Senado - me fizeram lembrar o isolamento de Vargas em 1954 e o de Jango em 1964. É claro que todas essas conjunturas são diferentes e nem se pode fazer qualquer associação maior entre as três situações, mas é curioso notar que a crise de representação partidária e a sistemática campanha de desmoralização institucional - itens de forte mobilização das classes médias - sempre estiveram presentes quando o objetivo das elites foi o de fragilizar o presidente da República, figura para a qual - nas duas ocasiões anteriores - convergiam todas as garantias de frágil equilíbrio político, como se Vargas e Jango, cada um à sua maneira, representassem os últimos obstáculos a serem removidos, apesar de sua forte popularidade.

Posso estar enganado, mas minha impressão é a de que estamos diante de uma vaga denuncista, pontilhada pela alavancagem midiática de candidaturas de esquerda, cujo objetivo parece ser o do desgoverno no território do parlamento brasileiro, pois que é ali que se constrói a sustentação do sistema político. Não fosse o descolamento que a economia guarda em relação a isso e a conjuntura estaria ainda mais deteriorada. É por isso que gostei do recuo de Mercadante: sua saída da posição de líder do governo no Senado agravaria ainda mais esse conjunto de dificuldades; sua permanência esvazia o discurso conservador (leia aqui a carta de Lula a Mercadante).

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