domingo, 16 de agosto de 2009

Gripe suína reitera nova representação da escola particular

Se alguém ainda não tinha percebido isso em situações anteriores, o episódio do adiamento do reinício das aulas em razão das ameaças do vírus H1N1 serviu também para não deixar dúvidas sobre a mudança que a representação simbólica da escola privada sofreu no país. A versão antiga do colégio particular era próxima do conjunto de extensões culturais da classe média: o médico, a igreja, a liderança comunitária. Essas instâncias da sociabilidade eram vistas como redutos irrestritos da confiança familiar: acreditava-se nelas de forma categórica e nem se imaginava que sua orientação pudesse ocultar qualquer intenção que não fosse o genérico bem-estar da esfera privada. É claro que essas relações fundadas em fortes laços pessoais ocultavam inúmeras dissimulações de poder e de domínio, mas penso que no cotidiano esse era o caminho através do qual um certo conformismo encontrava soluções para a ordem natural das coisas: a educação, a saúde, a paz do espírito e até mesmo a orientação política tinham nesses polos de influência respostas de credibilidade indiscutível.

A modernização capitalista colocou tudo isso abaixo e a escola é uma das instituições que paga o preço da mudança: a privatização do ensino foi tão aguda, a noção da educação como serviço ficou tão arraigada na vida brasileira que o que antes era uma relação de confiança transformou-se em relação mercantil cujo núcleo ideológico - como de resto em todas as outras dimensões da existência social - é a troca de equivalentes, isto é, tudo deve corresponder ao preço pago. No final das contas, a escola é uma operadora com a qual se tem um contrato, e essa relação contratual é sistematicamente medida não mais pela confiança, mas pela suposição de que se o atendimento ao cliente não for integral e satisfatório, algo deve ser feito pelo ressarcimento de quem se julga enganado, neste caso o aluno ou os seus responsáveis.

Agora mesmo, quando as escolas foram "obrigadas" a suspender o reinício das aulas, nem foi preciso muito tempo para que os atores envolvidos no problema se manifestassem: os pais foram logo questionando o pagamento dos dias parados e querem ou uma coisa ou outra - ou o seu desconto em valores ou a reposição integral das aulas; as escolas põem em dúvida se devem pagar seus professores e acenam para eles com calendários draconianos de reposição das aulas, obviamente para que não tenham que mexer no próprio bolso, mas continuam indignadas com a possibilidade de que a emergência tenha se tornado "férias suplementares" para os mestres; os professores, de seu lado, dispostos a cumprir com o seu ofício, se veem no meio desse tiroteio e, como é natural, defendem seus direitos.

Pode parecer exagero, mas há uma farsa montada em torno disso tudo porque já se sabe que o estrago no semestre letivo está feito e que nada conseguirá restabelecer a sua normalidade. Conteúdos programáticos, projetos de ensino, eficiência didático-pedagógica, tudo isso foi deixado para trás porque os discursos articulados em torno desses princípios são vistos com descrédito (ou com desconfiança, o que é mais grave): o importante é o valor; melhor, o preço, porque valor é outra coisa. O resultado é o que aí está: um problema de saúde, tratado em meio a trapalhadas de todos os lados, acabou tendo um aspecto positivo: revelou - como se outros fatos já não o tivessem demonstrado - que a escola pode ter perdido sua credibilidade como instituição educacional, ainda que encontre soluções que deixem sua clientela satisfeita.

2 comentários:

Marcio Hasegava disse...

Que ponto de vista interessante. Ainda não havia lido análise parecida em outros lugares e nem de outro autor.

Juliane disse...

Professor, uma sugestão... por que você não libera o seu blog para "feed"? Queríamos adicionar o seu blog no novo blog dos alunos do 1º de Jornalismo Noturno (estamos criando na aula da Pollyana) e ficamos tristes por não haver essa possibilidade =(
Que tal?
Desculpe a inconveniência (sei lá, não comentei nada sobre o seu texto, né?! hehe). Um abraço, Ju.