domingo, 9 de agosto de 2009

Pondo as ideias em ordem

Acabo de ler o artigo de Graham Murdock, Comunicação contemporânea e questões de classe, publicado no último número da revista Matrizes, da ECA/USP. Murdock é professor do Instituto para Comunicação de Massa da Universidade norueguesa de Bergen, e está disposto a resgatar o conceito de classe, entendendo que sua ausência nos estudos atuais, "bloqueia uma visão abrangente das condições contemporâneas" dos processos comunicacionais. O texto disponível em Matrizes - aliás, até agora o melhor número da revista - é uma excelente oportunidade para que os pesquisadores da área, quaisquer que sejam suas tendências filosóficas, ponham um pouco de ordem na dispersão teórica que tomou conta das Ciências Sociais nos anos recentes.

Para o autor, que se incumbe de historiar de forma bastante ampla o surgimento e o desenvolvimento da idéia de classe desde os primeiros textos de Marx, esse deslocamento para os lados daquela que pode ser vista como a referência fundamental da sociologia moderna foi o resultado da emergência de novos grupos no interior da sociedade pós-industrial, percebidos nas novas tendências teóricas não mais como segmentos do mundo do trabalho, mas como extratos portadores de uma gama complexa e exclusiva de padrões culturais, estes sim entendidos como o nexo causal de seu comportamento.

Foi o que bastou para que a pesquisa se voltasse "a descobrir as possibilidades para a liberação pessoal e autoexpressão" como um imenso universo de manifestações voluntariosas, desprovidas de sentido político e econômico, ainda que repletas de brilho de natureza coletiva e comportamental. Certamente, foi nos estudos dos processos comunicacionais que essa vaga obteve maior número de adeptos, até porque também foi neles que se manifestou empiricamente, mas eventualmente apenas na superfície dos processos sociais, o mundo informacional, midiático e cultural, que aparentemente transcendia as classes e se universalizava para todo o conjunto da sociedade.

O resultado a que assistimos agora, passados cerca de 40 anos desde o início dessa tendência, é a perda da percepção sobre a essência das contradições do mundo contemporâneo e a fragmentação particularista dos estudos que são feitos sobre os processos sociais, inclusive os da Comunicação.

Murdock apresenta cinco conclusões de sua análise, todas elas funcionando como uma espécie de roteiro para a superação das carências teóricas construídas em torno do abandono do conceito de classe. Elas vão desde a recuperação dos estudos de Bourdieu até a identificação das peculiaridades dos sistemas de sentido inerentes a cada formação social. Não é o caso de explorar aqui cada uma de suas sugestões, mas é sintomático que a proposta de uma revisão sociológica em profundidade dos conceitos com os quais as ciências da comunicação tabalham suja no momento mesmo em que todo o complexo midiático empresarial vai dando mostras de ser incapaz de construir uma cultura transcendente das condições econômicas e políticas do universo de sua audiência. Vale a pena ler o texto de Murdock.

Um comentário:

Marcia disse...

também li este texto e também acho que vale a pena parar de fingir que não existem mais classes sociais.