domingo, 13 de setembro de 2009

O simbólico e o econômico no jornalismo cultural

Volto ainda uma vez ao artigo de Graham Murdock (Comunicação contemporânea e questões de classe) publicado no último número da revista Matrizes, da ECA/USP, agora para uma rápida reflexão que envolve a recorrente polêmica conceitual sobre a natureza do jornalismo cultural.

Murdock, a certa altura do seu texto, reitera a clássica interpretação segundo a qual há, na imprensa e na esfera dos meios de comunicação em geral, uma permanente tensão "entre os interesses políticos e comerciais de proprietários (...) e a integridade profissional e criativa de jornalistas, dramaturgos de televisão, produtores cinematográficos e músicos...". Segundo ele, o resultado disso tem sido não apenas a preocupação de que o capital social e econômico e seus interesses privados se sobreponham aos interesses públicos, mas a evidência mesma de situações em que essa disputa desemboca na existência de uma "mídia rica" no âmbito de uma "democracia pobre", em especial no campo da produção cultural, isto é, um aparelhamento empresarial técnica e financeiramente forte, mas frágil do ponto de vista da abordagem e das discussões sobre os grandes temas da sociedade contemporânea.

Penso que há inúmeros motivos para concordar com a tese: basta acompanhar o movimento das pautas de alguns dos grandes veículos, em especial no campo do jornalismo, para se perceber que há um embotamento geral da criatividade de seus profissionais. Em alguns momentos, chega a ser sonolento o mesmismo das abordagens, dos destaques e até dos textos que circulam nas diferentes mídias, em especial naquelas que integram complexos da comunicação. Particularmente, atribuo isso, além das causas gerais apontadas por Murdock, às rotinas da produção e a uma espécie de servidão que elas vivem em relação a fórmulas mecadológicas bem sucedidas. Se associarmos isso ao universo de mudanças de natureza profissional vividas pelos jornalistas (brevemente apontadas por Murdock), temos aí um bom contexto onde buscar a explicação para o paradoxo entre o dinamismo espetacular que a produção midiática adquire crescentemente e esse acanhamento de conteúdo cujo resultado é uma sistemática práxis reiterativa do cotidiano.

As perspectivas que identifico nesse cenário, no entanto, não são exatamente pessimistas porque há uma outra contradição que me parece não suficientemente explorada: a fragilização dos grandes veículos provocada pela disseminação das tecnologias digitais, especialmente na área do jornalismo cultural. Onde era possível encontrar uma agenda dada pelos grandes jornais, por exemplo, verifica-se agora a possibilidade de construção de uma pauta que escapa ao seu poder econômico e avança na direção da ocupação do espaço público com temas que recuperam o capital simbólico da inovação jornalística. No caso da produção cultural e de sua inserção nessa esfera dilatada da imprensa, arrisco dizer que esse movimento chega contrabalançar o poderio do capital organizacional e social da mídia hegemônica. Naturalmente, o tema exige pesquisas de vulto que tomem como objeto até mesmo a quantificação parcial das páginas na rede que veiculam uma produção independente do jornalismo cultural e a checagem do impacto que essa nova produção tem sobre as editorias dos grandes veículos, mas aquilo que pode ter sido um fator de desarticulação do campo jornalístico, a "flexibilidade" apontada por Murdock no universo das relações de trabalho, no campo do simbólico, em parte em razão das inovações tecnológicas, pode estar significando uma revitalização das pautas e das coberturas. Quero voltar ao assunto.

4 comentários:

SSquirra disse...

Caro Faro,
Venho acompanhando suas reflexões e parabenizo seu esforço em tentar avançar nesta questão, que é para mim, sempre difícil e mesmo etérea. Você centra foco no Jornalismo dito Cultural, seja lá o que se entenda por isto. Não falo das teorias sobre o recorte, mas da análise sobre a prática, sobretudo nos veículos eletrônicos e, agora, digitais. Por analogia, entendo que as mazelas da cobertura jornalística nestes últimos seguem os modelos das experiências anteriores, aquelas impresas, pois o "controle" editorial vem do mesmo modelo empresarial. As "fábricas" de notícias de antes migraram para os novos meios e consolidam ai todos os pressupostos de produção e hegemonia de antes. Nada de novo, dentro da grande mídia, é lógico. Restam as movimentos "paralelos", que, enquanto resistem ao capital aquisitivo dos grandes, emitem abordagens alternativas. Mas, quem os acha? Quem os segue? Qual a repercussão destes frente aos grande conglomerados? Resta ver. Continue bradando forte. Esta é uma alternativa louvável.
Squirra
P.S.: continuo achando que você deveria mudar o nome para Comunicação, cultura e história.

J.S.Faro disse...

Squirra,
Obrigado pela atenção com o meu blog. Li seu comentário e ele bem merece uma discussão mais longa. Por que vc não propõe uma troca de idéias entre nós dois numa aula sua? Seus argumentos são fortes e merecem, se for o caso, contestação de respeito. Eu acho que passaríamos uns bons momentos – nós e os alunos – discutindo essa questão que envolve as práticas jornalísticas nos novos meios.
É a minha proposta...
Quanto ao nome do blog, aí eu vou logo respondendo: a História e a Cultura são as matrizes da Comunicação. É natural, pois, que haja aí uma ordem hierárquica de conceitos. Aliás, posso pôr em dúvida se a Comunicação existe (ela não seria mais que cultura materializada em discursos), mas não tenho como pôr em dúvida a História e a Cultura.
Além disso, é saudável para o programa que pelo menos um de seus docentes pense a coisa nessa perspectiva interdisciplinar, longe dos positivismos e funcionalismos que nos invadem a alma.
Obrigado mais uma vez e... um grande abraço
Faro

Marcos Paulo da Silva disse...

Prof. Faro,
Acabo de terminar a leitura do artigo do Graham Murdock. Desde seu primeiro post sobre o texto fiquei interessado pela temática; que soa, nos nossos dias, até mesmo démodé: falar de classe social. Chamou-me particular atenção a parte inicial da argumentação de Murdock. Lá, o autor sugere certa falta de compromisso dos intelectuais contemporâneos com o termo “classe” e justifica isso, em minha leitura, com aspectos sociológicos da pesquisa científica, aqueles ligados à questão extra-conhecimento: “É extremamente irônico que a ‘virada’ teórica pós-moderna, que impulsionou questões de identidade, consumo e diferença para o centro da atenção acadêmica, coincidiu quase exatamente com a revolução neoliberal em diretrizes sociais e econômicas” (p. 3). Ademais, também chamou minha atenção a embasada articulação que Murdock vai desenvolvendo entre os textos clássicos de Marx e leituras recentes, como as de Bordieu. Especificamente sobre seu post, considero (em minha humilde opinião) bastante válida a perspectiva de que as novas tecnologias podem contrabalançar o poderio “broadcast” da mídia hegemônica. Tendo, porém, a ainda considerar o (polêmico) argumento do texto da Sylvia Moretzsohn de que nenhuma tecnologia, por si, é capaz de alterar relações sociais, mas são as estruturas sociais que determinam a utilização das tecnologias. É uma reflexão. Vou continuar atento às reflexões do blog. Obrigado pela indicação de leitura.
Grande abraço.
Marcos Paulo da Silva

Cláudia disse...

Com um mês de atraso ouso deixar meu "singelo" comentário a respeito do texto postado em 13 de set."O simbólico e o econômico no jornalismo cultural". Na verdade minha intenção é comentar os comentários, uma vez que me identifico com a linha de pensamento exposta pelo prof. Faro no texto. Quanto ao debate proposto pelo prof. Faro ao prof Squirra achei uma idéia maravilhosa, uma experiência fantástica de valor agregado incalculável. Quanto ao título do Blog, com todo respeito ao prof. Squirra, concordo em gênero número e grau com o prof. Faro. Como aluna do programa luto pela bandeira da interdisciplinariedade, e muitos vezes me sinto uma sem teto acadêmica, graduada em direito, mestre em hospitalidade e doutoranda em comunicação social. No tocante ao comentário do Marcos agradeço a lembrança do texto e da argumentação da Sylvia Moretzsohn de que nenhuma tecnologia, por si, é capaz de alterar relações sociais, mas são as estruturas sociais que determinam a utilização das tecnologias. Bela reflexão.
Abraço, Claudia