terça-feira, 20 de outubro de 2009

Debate contesta revisão da estrutura dos cursos de Comunicação e das diretrizes de Jornalismo


A redefinição dos cursos de Comunicação a partir do desmembramento das atuais habilitações e a proposta de novas diretrizes curriculares para Jornalismo apresentada recentemente ao MEC pela Comissão de Especialistas acendeu o debate na Compós. A partir de uma mensagem postada na lista por Ivana Bentes, na qual a professora da ECO/UFRJ adverte para a possibilidade de que as mudanças previstas contrariem a concepção transdisciplinar do ensino de graduação com a segmentação das formações profissionais, duas manifestações posteriores indicam que muita água vai rolar até que o Conselho Nacional de Educação delibere sobre o assunto. A primeira veio de Afonso Albuquerque; a segunda, de Erik Felinto.

Para Albuquerque, "não são apenas algumas mudanças de nome e de perfil que ameaçam uma concepção mais abrangente do ensino da comunicação. É o espírito da reforma como um todo. E acho que a ameaça não se limita à graduação. A médio prazo o objetivo do movimento é alterar também a lógica da pós-graduação, impondo também a ela um modelo fragmentário".

Diz o professor da Federal Fluminense que "não se trata de especulação vazia. Basta observar o documento da Comissão de Especialistas - sempre me espanta a falta de transparência e de consulta pública com que o MEC define quem é 'especialista' - responsável pela elaboração das Diretrizes Nacionais para o Curso de Jornalismo". Com base no trecho da proposta das diretrizes para jornalismo no qual a comissão recomenda ao ministério a ênfase na formação pós-graduada em jornalismo de professores da habilitação, Afonso Albuquerque adverte que "afora o absurdo evidente de uma comissão criada para normatizar cursos de graduação em jornalismo extrapolar a sua autoridade para também normatizar a pós-graduação - o que significa simplesmente passar por cima da Compós como forum de debate sobre o assunto - fica evidente uma atitude preconceituosa em relação à formação teórica em Comunicação. Como esta é a matéria prima básica do nosso modelo de pós, dá para se ver o tamanho da ameaça".

"De resto, a reforma da graduação é de um fantástico contra-senso", diz Albuquerque: "Para começar, ela mistura alhos e bugalhos. Jornalismo, Publicidade e RP são campos de atuação profissional, Rádio, TV e Internet são tecnologias da Comunicação, que têm interfaces evidentes com Cinema e Audiovisual - alguém conhece alguma televisão que não veicule produtos audiovisuais? - e multimídia é... Alguém ainda se lembra o que é multimídia?

"Em segundo lugar, prossegue, ela ignora inteiramente a realidade do mercado de trabalho deste século: a convergência das linguagens e dos meios, dos usuários ativos, das redes sociais e assim por diante. O mercado de trabalho real, que emprega uma grande (e crescente) parcela dos alunos que saem da faculdade hoje". Afonso Albuquerque acha "bizzaro sugerir que ninguém trabalha com 'comunicação', mas com 'jornalismo', 'publicidade' e etc. É justamente o contrário. As pessoas hoje trabalham com comunicação em um sentido integrado, muito mais do que dentro de fronteiras habilitacionais específicas. É público e notório que o mercado de trabalho das organizações jornalísticas stricto sensu está em declínio. Provavelmente, o setor que mais emprega jornalistas no Brasil é a assessoria de imprensa. E só no Brasil assessor de imprensa é jornalista... Os profissionais 'puro-sangue' ambicionados por este modelo são, hoje, espécies em extinção. Simplesmente não há mais lugar para eles no mercado de trabalho.

"De onde vem tanta cegueira", pergunta Albuquerque. "Provavelmente - acrescenta ele - da repulsa mal disfarçada (se é que em algum momento disfarçada) em relação à formação teórica em Comunicação. A formação prática só permite olhar para o passado. Reproduzir modelos estabelecidos. E quando as coisas mudam, e estes modelos entram em crise? Neste caso, o que entra em jogo é a capacidade de diagnosticar a situação, avaliar os elementos envolvidos e propor sugestões originais".

"A minha sensação, conclui o ex-presidente da Compós, é que o verdadeiro objetivo da reforma é deter a evolução da formação superior em comunicação. Evolução inevitável, dado que as coisas estão mudando, e estão mudando rapidamente. Querer parar a história a golpes de burocracia é algo que nunca dá certo".

Para Erik Felinto, que também foi presidente da Compós, as mudanças que estão sendo propostas criam paradoxos graves: "... mais preocupante ainda que as diretrizes do MEC é a filosofia (se é que assim podemos chamá-la) que está na base da coisa". E acrescenta: "É um verdadeiro absurdo que 'especialistas' considerem ser impossível pensar sobre qualquer prática humana sem que a tenhamos primeiramente exercido. Nesse caso, ninguém poderia tornar-se criminologista ou fazer sociologia da violência sem ter cometido um crime. Preciso primeiro matar alguém para depois poder refletir sobre as motivações e métodos de Raskolnikov. No domínio dos estudos literários, igualmente, não passaria pela cabeça de ninguém julgar que os escritores seriam necessariamente os melhores teóricos da literatura apenas pelo fato de escreverem literatura (ainda que até possa ser o caso acidentalmente).

"Isso é divertido, admite Felinto, "mas é o de menos". "O que me parece realmente assustador é a concepção de comunicação (bem como da produção do conhecimento e da formação universitária) que estrutura essa reforma. Em primeiro lugar, essa concepção essencializa realidades histórica e culturalmente determinadas, como o jornalismo ou o cinema, transformando-as em idéias platônicas. Para garantir sua subsistência nas feições que adquiriram historicamente no mundo moderno, mesmo face às violentas transformações tecnológicas, sociais, econômicas e culturais dos últimos anos, é preciso elevá-las ao “topos ouranos” da imobilidade temporal e fetichizá-las da maneira mais rasteira possível.

"Em segundo lugar, acrescenta, criam-se mundos estanques (agora, numa versão bastarda das mônadas leibnizianas), nos quais os campos, as práticas, as teorias são completamente incapazes de se comunicar. Em relação ao cinema, especificamente, o sôfrego desejo de desligá-lo a todo custo da comunicação ou da rubrica “audiovisual” revela um extremo desconhecimento da história da mídia e suas dinâmicas particulares. A mais recente historiografia da mídia vem demonstrando à exaustão que nunca existiu algo como um puro discurso ou forma cultural cinematográfica. Ainda que o cinema pertencesse somente a uma esfera da 'pura arte' (como alguns gostariam), sem qualquer relação com questões comunicacionais, teríamos que perguntar de que noção (também historicamente condicionada) de arte estamos falando".

No caso do jornalismo, a idéia de um "suposto domínio cognitivo da sua especificidade" entra em choque o "cenário em que os impactos tecnológicos das novas mídias – e aqui aceito sem nenhum embaraço a surrada acusação de “determinismo tecnológico” – põem em cheque uma vasta série de hábitos cognitivos e formas tradicionais de produzir e consumir informação".

Para Felinto, a proposta de reforma curricular apresentada pela comissão "parece conformar-se à certa tendência de pensamento tecnicista e disciplinar que vem assolando o campo da comunicação aqui em nossas terras tropicais. Enquanto no resto do mundo centros de pesquisa e pesquisadores tornam-se cada vez menos apegados a rótulos disciplinares e a objetos nitidamente recortados, por aqui ainda encontra bastante ressonância a fábula dos três porquinhos que se trancam em sua casa enquanto o lobo assopra lá fora. Nesse sentido, o exemplo da literatura comparada, que não teve pudor algum em declarar a dissolução de seu objeto tradicional (e com isso buscar novos horizontes precisamente nos estudos de mídia) é significativo e inspirador. Na UERJ, impressiona-me a quantidade de estudantes que se graduam em jornalismo para depois cursar Relações Públicas ou Publicidade (e vice-versa). Isso porque eles percebem, ao contrário do que insinuam as diretrizes, que o campo profissional da comunicação encontra-se cada vez mais esgarçado e o mercado se interessa precisamente por aqueles que conseguem transitar entre diferentes horizontes práticos e universos de referência cultural.

"Na verdade, conclui o professor da UERJ, se a comunicação já não fosse tão fragmentada quanto é, talvez eles não tivessem que gastar tantos anos fazendo outros cursos. Afonso termina dizendo que 'parar a história a golpes de burocracia é algo que nunca dá certo'. Eu acrescentaria, lembrando Zizek, que a burocracia é uma das mais representativas encarnações do super-ego: ao mesmo tempo assustadoramente autoritária e totalmente risível em seu incansável afã prescritivo".

O debate está aberto... Pretendo acompanhar os desdobramentos da discussão e postar no blog as idéias principais apresentadas nas listas.

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