segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Estética e conceito no jornalismo cultural I

Nos estudos que tenho feito sobre o Jornalismo Cultural uma das hipóteses com as quais trabalho é a de que são dois os elementos fundamentais que estruturam a pauta do gênero: as informações e análises de natureza estético-conceitual e aquelas de natureza ético-política. São dois conjuntos que caminham lado a lado, mas é preciso distinguir a especificidade de cada um deles para que seja possível perceber onde reside o núcleo noticioso daquilo que é publicado em suplementos, revistas, seções e cadernos onde a cultura está presente no jornalismo.

No primeiro caso que me ocupa aqui - os elementos estético-conceituais -, o que chama a atenção é o conjunto de proposições expressivas que marcam o objeto das matérias, isto é, as informações que dão conta das relações entre uma determinada manifestação cultural e a realidade, sempre a partir de uma proposta narrativa que emerge das questões colocadas na cultura contemporânea. Obras da literatura, do cinema, do teatro, da música, mesmo quando são reedições, constituem-se em fatos noticiosos do jornalismo cultural não propriamente por sua emergência enquanto fatos, mas por uma abrangência tradutora de posições a respeito de problemas relativos à sociedade em geral e ao indivíduo em particular. Quando isso ocorre, o jornalista se vê na contingência de trabalhar em torno desse sentido mais amplo que a percepção estética permite, debruçando-se sobre o significado social daquilo que está sendo analisado.

Essa breve reflexão vem a propósito da apresentação que José Luiz Braga fez do livro de Sérgio Gadini (Interesses cruzados: a produção da cultura no jornalismo brasileiro). Para Braga, no jornalismo cultural "o texto jornalístico [não] pode se pretender externo ao 'acontecimento'. Ele não só relata, mas interpreta, comenta, é estruturalmente solicitado a se manifestar em termos de valor". E acrescenta: "a 'validade' (noticiabilidade?) do cultural é menos objetiva em si, mais dependente de valores simbólicos às vezes impoderáveis, em todo caso, menos previsiveis". Segundo entendo, é nessa característica mediata do gênero e em seu déficit de objetividade que se encontra um dos núcleos específicos do jornalismo cultural, de onde ele retira os parâmetros de identidade com os quais aborda o assunto de sua pauta. A conclusão não me parece tão óbvia, mas é possível especular então com a hipótese de que parte de tais parâmetros estão localizados nas dimensões estéticas e conceituais do fato cultural.

Naturalmente, uma visão mais econômica do gênero leva sempre à constatação de que os fatores determinantes dos fatos culturais explicam-se antes por sua inserção no mercado de bens simbólicos, mas é preciso ponderar sobre essa dupla dimensão da cultura: a da sua racionalidade mercantil e a da sua imanência e interioridade criadora. Esta última é que me parece se constituir, como disse acima, num dos elementos que estruturam o jornalismo cultural. Vamos voltar ao tema na próxima postagem.

Um comentário:

Cláudia disse...

Prof. Faro, apesar o texto pequeno seu conteúdo dá margem a muita reflexão,e é o que pretendo fazer. Para isso preciso ler e reler dada a minha dificuldade com o texto acadêmico, mas confesso: sou apaixonada por um texto elegante, que aprendi a admirar com a minha orientadora de mestrado, historiadora como o prof. Bem que eu queria me graduar em História, mas meu pai fez pé firme no direito, pena!