sábado, 3 de outubro de 2009

Literatura é desafio para o jornalismo cultural

Acabo de encerrar a 1a. aula do módulo sobre Jornalismo Cultural do pós da Unimep. Uma boa discussão com os alunos, tal como ocorreu, me fez refletir ainda mais sobre o verdadeiro desafio que a Literatura representa para o gênero, desde que ele não seja entendido como um espaço do jornalismo reduzido à prestação de serviços e sempre que os editores dos suplementos, cadernos, seções etc não queiram reduzir as matérias a uma coletânea produzida por especialistas. Nessa hipótese, o profissional está diante de um complexo de possibilidades para o qual, segundo entendo, só há uma saída: um mergulho profundo na narrativa literária com os olhos postos na cultura.

É sobre isso que Mário Vargas Llosa fala na apresentação do livro A cultura do romance recém-lançado pela Cosacnaify: a literatura "é um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam". Para Llosa, essa partilha permitida pela arte produz um "conhecimento totalizador" que remete à essência dos processos sociais e, ainda segundo ele, só o romance é que tem condições de fazer isso.

Não é o caso aqui de discutir as teses do escritor peruano, mas essa dimensão da literatura parece inquestionável e põe em cheque sistematicamente o jornalista que trabalha com a cultura, já que a ele compete não propriamente o estudo do estilo, das estruturas linguísticas de uma obra, mas a atenção para o universo dos conflitos humanos que produz aquele território comum de entendimento, um mesmo mapa de significações através do qual o jornalismo cultural se transforma num exercício de reflexão e de esclarecimento.

Digo isso porque em diversas ocasiões, as discussões em torno do gênero têm sido permeadas pela visão invariavelmente conclusiva de que tudo se resume às pressões econômicas desencadeadas pelo mercado dos bens simbólicos sobre os veículos. Sem descartar a hipótese de que tais pressões realmente ocorram, pondero sobre um dos mecanismos de resistência a elas: a qualificação intelectual do profissional da imprensa. No caso da Literatura, isso não é possível sem o conhecimento denso do universo ético-político em que ela se manifesta, mais do que seus parâmetros estéticos e estruturais.

2 comentários:

Marcos Paulo da Silva disse...

Olá Prof. Faro! O comentário aqui fica por conta de um comentário que acabei me esquecendo de fazer ontem, pessoalmente. Muito interessante a relação que fez durante a banca da Margareth: o jornal enquanto "monumento" e o jornal enquanto "documento" de análise. Realmente instigante essa perspectiva da necessidade de "desconstrução" do monumento. Grande abraço.

Cláudia disse...

Prof. Faro e Marcos fiquei intrigada, não sei se entendi direito o como explicar o jornal enquanto documento e como desconstrui-lo. Segue minha linha de raciocínio para reflexão:
um monumento é uma estrutura construída por motivos simbólicos. Para Derridá a teoria da desconstrução consiste em desfazer o texto a partir do modo como este foi organizado originalmente para que, assim, sejam revelados seus significados ocultos. Será que a desconstrução do jornal enquanto monumento busca encorajar a pluralidade de discursos, legitimar a não existência de uma única verdade ou interpretação, com um caráter de disseminação de possíveis e novas verdades, e aí reside a importância do jornalismo cultural ...
Claudia