terça-feira, 27 de outubro de 2009

Mudanças sociais e processos de comunicação

Concluí nesta semana a análise e a discussão do texto Capitalismo tardio e sociabilidade moderna com os alunos da disciplina História Social dos Processos Comunicacionais do Póscom/Umesp. O trabalho, de autoria de Fernando A. Novais e João Manuel Cardoso de Mello, integra o 4o. volume da obra História da Vida Privada no Brasil. Trata-se de um painel bastante complexo das mudanças sócio-culturais características da ocorrência da modernização "prussiana" vivida nas diversas etapas de expansão do processo de industrialização brasileira. O estudo de Novais e Cardoso de Mello põe à mostra os paradoxos decorrentes de uma sociedade marcada profundamente pelos desníveis de renda mas que, contraditoriamente, espalhou por todos os estratos a adesão aos produtos do consumo moderno e aos seus signos culturais. Ao final da leitura do texto, é possível perceber as marcas aparentes de uma sociabilidade que consagra a universalização de comportamentos mas que consolida de forma radical as distâncias sociais, base das relações do poder oligárquico e econômico, das quais a mídia tradicional foi expressão e instrumento.

Capitalismo tardio, no entanto, é um texto que observa o cenário brasileiro até um determinado período histórico e precisaria, de alguma forma, ser atualizado face às mudanças que se verificaram no país nos anos recentes. Refiro-me aos indicativos de mobilidade social que vêm sendo apontados por diversos estudos que levam em conta o perfil da distribuição da renda brasileira, em especial aquele que diz respeito à emergência de uma "nova classe média" que amplia sua inserção na diversidade de manifestações culturais permitidas pela intensidade do crescimento econômico, mas agora alicerçada numa maior participação no bolo da riqueza nacional. Quais os efeitos que essas mudanças têm provocado nos processos comunicacionais?

Um matéria publicada recentemente no site do Forum Nacional pela Democratização da Comunicação (leia aqui) apresenta cifras que jogam luz sobre a dinâmica entre os dois processos - o da condição econômica e o dos padrões culturais. Segundo Sandra Carvalho, que assina o texto, a FGV informa que 97,2 milhões de pessoas compõem hoje a chamada classe C emergente (pessoas com renda familiar mensal entre R$ 1.064 e R$ 4.561). Nesse enorme contingente o percentual de "penetração" na internet é de 39%, índice que deve chegar a 45% ainda em 2009, o que significa que "uma de cada duas pessoas emergentes surfará na web até o final do ano". Trata-se de uma cifra inferior à proporção de internautas nas classes A e B, mas quantitativamente mais expressiva se levarmos em conta os números brutos que ela representa. Em linhas gerais, a expansão do acesso à rede vem acompanhada pela ascensão ininterrupta da compra de computadores e do uso da banda larga em todos os estratos: a mesma matéria do FNDC dá conta de 12 milhões de máquinas vendidas em 2008 às quais se acrescentaram outros 4,8 milhões no 1o. semestre de 2009. A banda larga em 2008 cresceu mais de 45% em relação a 2007. Essas duas medidas - a da aquisição de computadores e a do acesso à rede - demonstram que a maior participação na renda nacional vem acompanhada, de forma geral, de maior acesso à informação através de alternativas variadas, mas de qualquer forma inéditas: novos padrões de consumo vinculados a padrões de comportamento também modernos, o que, em hipótese, pode mudar inteiramente o perfil dos processos comunicacionais na base da pirâmide social.

Nesse contexto, ganha importância a constatação feita por Venício Lima: uma redução gradativa, mas persistente, da influência dos veículos tradicionais e sua conformação com perspectivas regionais de atuação, fato que demonstraria a existência de um gueto comunicacional circunscrito social e geograficamente em contraposição ao dinamismo exibido pelos índices de acesso à informação em setores com os quais os "jornalões" (para usar a expressão do autor) deixaram de manter - se é que mantiveram em algum momento - uma relação hegemônica de controle discursivo. Venício Lima não diz que esse "isolamento" dos veículos tradicionais representa o fim de seu papel de "formadores de opinião", em especial nas classes A e B, apenas pensa a possibilidade de que a ação desses veículos acabe por reproduzir vozes sociais que falam para si mesmas, alheando-se às mudanças ocorridas à sua volta. Se a hipótese encontrar sustentação em outros estudos sobre essas transformações, alguns paradigmas teóricos e conceituais sobre a comunicação no Brasil teriam que ser revistos, entre eles um evidente déficit de natureza metodológica, a saber: a necessidade de visualizar o cenário aparentemente errático das mudanças com a atenção voltada para o movimento que se dá na sociedade, nos deslocamentos provocados no interior dos diversos grupos e entre eles mesmos, ou corrermos o risco de produzir um entendimento de um fenômeno que oculta na sua essência interpretações fundamentais dos processos comunicacionais.

Um comentário:

Anônimo disse...

Prof. Faro o texto ficou muito bom, resume e explica de forma clara as discussões em sala de aula e refoeça a importancia de se entender o caminho percorrido pelos processos comunicacionais na História e a necessidade de continuidade dessa "perseguição". Tecer um paralelo entre Capitalismo Tardio e o texto de Venício Limae fomenta o interesse em estudos de novos paradigmas. Fechamos esse capítulo com "chave de ouro".
A título de reflexão: é possivel entender o artigo escrito pelo embaixador Rubens Barbosa (BARBOSA, Rubens." Novo colonialismo ou novas oportunidades?", e Estado de São Paulo. São Paulo 27 out. 2009. Espaço Aberto A2) a partir do paradigma do capitalismo tardio...(vou encaminhar o texto vie e-mail)
CLAUDIA