sábado, 28 de novembro de 2009

Ainda a relação professor x tecnologia

Volto ainda uma vez ao problema das difíceis condições de trabalho que os professores têm enfrentado por conta da disseminação das TICs na Educação. Até onde consigo perceber, o estranhamento dos docentes não se dá tanto em relação à natureza da tecnologia, embora seja possível perceber resistências conservadoras à sua utilização por professores refratários às mudanças de qualquer tipo sobre atividades que se incorporaram à sua existência profissional. Penso, no entanto, que em sua maioria os educadores atuam aí como todos os demais trabalhadores, buscando adotar um padrão mínimo de acompanhamento das inovações. Bem feitas as coisas, é possível que os professores acabassem se constituindo num núcleo de profissionais catalisadores das mudanças.

O estranhamento, portanto, é de outra ordem e tem outros motivos: ele existe em razão de um determinado conceito utilitário e quantitativista das TICs posto em prática na maioria das escolas (em especial as particulares) de forma meramente operacional, fato que dificulta ao docente o entendimento da riqueza que a técnica pode oferecer para o processo de ensino-aprendizagem. Responder emails de alunos, aplicar testes na rede, registrar frequência ou avaliações, sacrificar a qualidade de uma aula em razão de programações abstratas e pressionadas pela urgência constituem um conjunto de tarefas sufocantes e inspiradas numa concepção administrativa de sua relação com o conhecimento, porque não é dessa forma que ele é nem produzido nem apreendido. É natural que os professores vejam aí um padrão de atividade com o qual eles não se identificam e para o qual nem chegam a ser remunerados de forma adequada e digna; e é sintomático que a denominação de "tutor" vai ficando reservada para professores que veem o que fazem reduzido ao mero monitoramento de algumas dessas aplicações.

Estou convencido de que isso ocorre por dois motivos. O primeiro deles é consequência direta e imediata da filosofia interna daquelas escolas onde essa situação é mais aguda, isto é, a precipitação e o afobamento na adoção de modelos que agilizem o ingresso de seus cursos nesses novos tempos - eventualmente com a compra de pacotes prontos de softwares estranhos a quaisquer projetos pedagógicos qualificados. Tudo indica que isso tem provocado a alienação do professor sobre aquilo que está sendo posto em prática pois que ele não vê nas mudanças todas senão o sentido burocrático que se acrescenta ao sem-número de atividades com as quais já está envolvido. O resultado é o que se vê por aí: um grau de estresse, de desgaste físico, de sobrecarga de trabalho que anula a potencialidade que as TICs têm para os professores e para as próprias escolas como instituições educacionais, pois é isso o que elas deveriam ser.

O segundo motivo é bastante conhecido: em boa parte dos estabelecimentos de ensino, as mudanças incrementadas pelas novas tecnologias são inspiradas pelo mercado, pela concorrência, pelas cotoveladas que as empresas dão umas nas outras para conquistar a clientela; não têm nada a ver com o aperfeiçoamento dos processos didático-pedagógicos - ainda que os discursos que as jusfiquem digam que sim, até com um certo deslumbramento. Sob esse aspecto, é possível que as mudanças estejam sendo bem-sucedidas, mas é insignificante o ganho educacional que representam, e esse é um elemento que se acrescenta ao estranhamento dos professores.

Tenho dito em diversas ocasiões que as TICs são essencialmente emancipadoras da atividade intelectual e alargam as possibilidades de acesso à transmissão e à obtenção do conhecimento, mas sempre que isso seja feito de forma criteriosa e autônoma pelos sujeitos que conseguem estabelecer uma relação enriquecedora entre o conteúdo do que fazem e a forma como o fazem, no trabalho e na criatividade. Posso estar enganado, mas a lógica com que elas têm sido inseridas na Educação é o oposto disso, como os professores testemunham todos os dias. Como é mesmo o nome daquela espécie de imposto que uma geração transfere para outra porque não tem noção dos efeitos negativos que sua ação tem no presente? Imposto geracional? Pois a forma como as TICs têm sido implementadas nos nossos sistemas de ensino é bem isso: estamos empurrando para frente as consequências desse déficit.

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