segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Na área da Comunicação, excessos no jogo político podem prejudicar relevância acadêmica


Participei semana passada de uma reunião do conselho da Compós. Para quem não sabe, a Compós é uma associação nacional de programas de pós-graduação em Comunicação. A entidade tem uma presença relevante na área já que reúne em seus encontros anuais, em diversos grupos de pesquisa, docentes e alunos dos 34 cursos (se não me engano no número) espalhados pelo país. A atividade - em torno da qual gira um dos compromissos principais da associação - põe a público temas fundamentais das Ciências Sociais Aplicadas e através de um processo periódico de reclivagem assegura uma sistemática atualização do "estado da arte" em torno dos diversos objetos, conceitos e métodos de investigação que ocupam o cenário da Comunicação.

Dito assim, de forma simples e objetiva, a atividade desenvolvida pela entidade é coberta de méritos. E é mesmo: passam pela Compós pesquisadores que gozam de prestígio variado no espaço acadêmico da área, todos eles envolvidos com a seriedade de sua produção, e eu não hesitaria em afirmar que esses encontros anuais catalisam o conjunto da massa crítica e o estoque do que há de melhor no conhecimento que o Brasil produz na pesquisa científica que tem como foco os fenômenos comunicacionais. Ainda bem que é assim pois que se tomados como referência os temas da reunião de que participei nem de longe é possível atribuir à Compós a importância que ela construiu nos últimos anos. Digo isso porque há uma distância muito grande entre o perfil orgânico dessa entidade e aquilo que se processa na sua base, no universo fragmentado da pesquisa. No topo, na direção da associação, um intrincado jogo de peças que tenta sistematizar as pulsões da área; no andar de baixo, a essência da atividade acadêmica. Em cima, estão em disputa os espaços de reconhecimento de natureza política; em baixo, os espaços de reconhecimento são disputados pela qualidade dos trabalhos de investigação.

O problema todo é que a Compós não está sozinha na área pois o que não falta na Comunicação hoje são foruns, associações, federações: estaduais, por sub-área, de graduação e de pós, nacionais, internacionais, latinoamericanas, iberoamericanas, européias, lusófonas, africanas, australianas, de professores, de estudantes, sem falar nas representações nas agências de fomento... um universo disperso no qual é um verdadeiro desafio encontrar algum tipo de unidade - ou de plataforma programática - que justifique essa pluralidade de existência que eu imagino não existir em outras áreas; e ainda que todas essas entidades queiram para si, da mesma forma que a Compós, o abrigo da produção científica de excelência e a legitimidade da representação da área, o fato concreto é que o embate político que decorre de seu movimento acaba fragilizando o conjunto das demandas e até mesmo o brilho da pesquisa que se produz no interior dos cursos. Pior que isso: institui-se, no lugar do debate de idéias e de tendências teóricas, o confronto de redutos personalizados de poder acadêmico que acabam por obscurecer as reivindicações mais amplas de todo o conjunto.

Espero estar enganado, mas não vejo com otimismo esse processo e acho mesmo enganoso que ele possa ser justificado como efeito de uma suposta riqueza democrática da área. Penso que não se trata disso: a fragmentação aqui revela fragilidade mais que dinamismo e, se é que isso já não está ocorrendo, pode contaminar a própria relevância acadêmica de sua produção.

Reprodução: Fragmentos, Paulo César.

Um comentário:

J.A. disse...

Infelizmente eu concordo. Acredito que os interesses políticos acabam sobrepondo os interesses científicos, se não por completo, na maior parte do meio acadêmico.
E quando esse interesse político não é congruente com os ideais de um determinado grupo de pesquisadores, estes estão sujeitos aos interesses das entidades que os suportam ou dos cargos superiores, cujo aval é imprescindível para a continuidade do grupo.
Estamos de mãos atadas?
Grande parte da massa de estudantes sequer enxerga por cima da beirada da "forma de bolo". E os que enxergam, talvez vejam a si mesmos como uma metáfora de um político bem intencionado no meio da maré...
Tomara que um dia fabriquem barcos potentes o suficiente para quebrarmos as cristas destas ondas. Só com um par de remos fica difícil.