domingo, 22 de novembro de 2009

Tecnologia & trabalho

Passei boa parte do fim de semana lendo o texto de Manuel Gómez Acosta publicado no la factoria (Leia aqui). Trata-se de um ensaio sobre as consequências das mudanças tecnológicas no plano econômico e das determinações que elas têm sobre o perfil geral dos trabalhadores. Por conta desse enfoque, nem de longe Acosta se preocupa com questões de natureza cultural, embora seja possível perceber que as transformações nos padrões operacionais de praticamente todas as categorias profissionais, segundo o autor, estejam ocorrendo paralelamente a mudanças correlatas de referências simbólicas e de comportamento.

No final das contas, o que Acosta quer demonstrar são os efeitos disso nas vantagens competitivas das empresas e no mundo trabalho, reservando para este último a indicação de um conjunto de categorias que demonstram o surgimento de uma nova segmentação social que toma como referência a maior ou a menor aproximação com os processos criativos-inovadores instaurados pelas tecnologias da informação e da comunicação (TIC) e não mais a maior ou a menor habilidade meramente operacional ou titulada: no topo, uma elite tecnocrática, detendora do conhecimento tecnológico; na base, a funcionalidade da mão de obra cuja atividade é meramente reflexa dessa elite. Não é preciso ir muito longe: na hipótese de que isso esteja mesmo acontecendo (e tudo indica que está), os efeitos dessas mudanças tendem a se espalhar pelo conjunto da sociedade em ondas assimétricas em cada um dos setores profissionais, com consequências ainda não suficientemente estudadas no universo educacional, que é o que me interessa.

Pois foi exatamente isso que me chamou a atenção no artigo de Acosta: em nenhum momento há qualquer referência ao lugar ocupado nesse panorama pelos educadores, nem nos processos de mudanças em curso, nem nos processos de sua consolidação. Evidentemente alguém poderá dizer (ou pensar) que são os professores os agentes fundamentais dessas transformações, mas me parece que essa afirmação oculta um fato mais grave: a segmentação apontada pelo autor do texto já se processa no interior da categoria dos docentes de todos os níveis de ensino, tanto pela pela relação mediata que a maioria mantém com as inovações tecnológicas quanto em consequência da forma como o seu trabalho com as TIC tem sido apropriado pelas instituições educacionais, públicas ou privadas.

Quero dizer com isso que a escola tem confinado os professores à condição de meros executores operacionais de um conjunto de recursos técnicos que ganham dimensão em suas atividades profissionais não pela emancipação criadora que podem permitir, mas pela sufocante rotina de procedimentos cuja lógica é administrativa e não educacional. Acrescente-se a isso o fato de que nessa racionalidade instrumental amplia-se a presença, no caso das escolas particulares, de uma racionalidade econômico-financeira que sobrecarrega a mão de obra docente como um valor agregado ao produto que vende à sua clientela. O resultado é o que se vê: um fosso que se abre cada vez mais profundo entre a educação e a técnica, como dois universos que se estranham no cotidiano dos professores.

Acosta trabalha em seu artigo com a hipótese de que o parâmetro da vantagem comparativa entre as nações é hoje o da inovação em TIC e apresenta o resultado do ranking elaborado pelo Network Readiness Index divulgado pelo Forum Econômico Mundial em 2006. Segundo a publicação, o primeiro lugar é ocupado pelos Estados Unidos; seguem-se Cingapura e Dinamarca. A Espanha, país do autor do artigo, está em vigésimo nono lugar, abaixo da Suécia, da Suiça, da Inglaterra, da Finlândia, da Holanda, da Noruega, da Alemanha, da Áustria, da Irlanda, da Bégica. Em todos esses países, com exceção dos Estados Unidos, o núcleo fundamental da cultura da mudança é a escola e, com ela, os professores. O Brasil ocupa o quinquagésimo segundo lugar (não vale a pena indicar abaixo de quais países). Penso que as relações dos professores com as novas tecnologias e o perfil de suas relações de trabalho com elas têm muito a ver com isso.

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