quinta-feira, 18 de junho de 2009

Diploma: estudantes indicam o caminho


O dia de ontem e a madrugada de hoje foram momentos de extraordinária reflexão de todos os que estão envolvidos com o ensino do Jornalismo. O que me chamou a atenção, no entanto, não foram as vozes autorizadas da academia nem as propostas precipitadas de campanhas (algumas até com slogans prontos). O que me chamou a atenção nas diversas comunidades de que participo foi a maturidade manifestada pelos estudantes. Poucas foram aquelas despeitadas e rancorosas do tipo "vou trancar a matrícula" ou "vou fazer outro curso porque meu diploma não vale nada". O que ocorreu foi uma verdadeira guerrilha de cobrança dos cursos, uma saudável expectativa de que, com a decisão do STF, as faculdades de Jornalismo encarem com seriedade e compromisso a responsabilidade que têm com seus alunos.

Eis aí um bom indicativo para a comissão que vai propor novas diretrizes curriculares para os cursos: afastar qualquer ilusão de que o perfil da formação "para o mercado" pode resolver o impasse surgido agora. O que os currículos precisam é a possibilidade de oferecer aos alunos perspectivas de rigorosa e densa formação intelectual ao lado da prática experimental que rompa o círculo vicioso do mimetismo que se estabeleceu com a mídia hegemônica.

Se o diploma não é mais exigido, o jornalismo continuará a exigir formação de qualidade. Penso que essa iniciativa deve ser recuperada pelos cursos específicos desde que permitam aos que os procuram a construção de horizontes avançados para a inovação conceitual e para a inovacão aplicada. A decisão tomada ontem pelo STF abre a discussão em dois sentidos: um é o dos efeitos que ela terá sobre a acomodada reserva de mercado que construiu posições imobilistas; outro é o do a inquietação sobre os desafios que a profissão passa a viver a partir de agora. Torço para que a comunidade universitária se preocupe com este último aspecto e deixe de lado, de uma vez por todas, o primeiro.

Leia as ponderações do Prof. Rogério Christofoletti, da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, e conheça também as reflexões do jornalista Pedro Aguiar divulgadas na lista do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo.

E mais: André Mazini e Leandro Fortes também escrevem sobre as consequências da decisão do STF.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

STF extingue exigência do diploma para jornalistas


Por 8 a 1, o Supremo Tribunal Federal acabou hoje (17/06) com a obrigatoriedade do diploma para a profissão de jornalista. É cedo ainda para avaliar todas as consequências da decisão, mas algumas especulações podem e precisam ser feitas. A primeira diz respeito ao impacto que isso deve provocar, a médio prazo, nas centenas de cursos existentes pelo país afora, inúmeros deles sem a menor condição de funcionamento. Com a perda da reserva de mercado, as instituições que os mantém certamente verão minguar a procura por seus vestibulares. A longo prazo, muitos encerrarão suas atividades. Para que resistam será preciso melhorar, e muito, a qualidade do ensino que oferecem.

Essa talvez seja a consequência mais positiva da decisão do STF: um arejamento daquilo que é ensinado aos jovens que, na maioria dos casos por idealismo e romantismo, querem estudar jornalismo. No final das contas, será preciso oferecer seriedade teórica e experimental - e não meramente o que é puro mimetismo do mercado e retalhos de cultura geral - para que um formado em jornalismo, nessa nova condição, possa competir em igualdade de condições com egressos de cursos de áreas de conhecimento com maior densidade formadora.

A segunda consequência será um forte estreitamento do mercado de trabalho - já diminuto - em decorrência da extraordinária ampliação da oferta de mão de obra. Como a decisão do Supremo não estabeleceu qualquer contrapartida para o fim do diploma, neste momento nenhuma graduação será exigida para o exercício profissional. Também neste caso os efeitos podem ser desvastadores: já não há para o formado em cursos específicos a garantia de que o registro profissional possa lhe oferecer, mesmo de forma ilusória, a possibilidade de ocupar algum posto na área da imprensa. Se não estiver qualificado, com ou sem diploma, o candidato ao emprego de jornalista estará em dificuldades e provavelmente fora da disputa.

A decisão do STF levou em conta um argumento idiota: a exigência até hoje existente era uma ameaça à liberdade de expressão. Tomada a sério, também a propriedade privada dos meios de comunicação deveria ser cassada. O que esteve em jogo o tempo todo em que o assunto foi debatido na esfera pública foram duas ordens de problemas. De um lado, há mesmo na sociedade um surdo sentimento anti-regulatório que fragilizava a defesa da exigência do diploma e contra isso nenhum órgão corporativo dos jornalistas soube ou teve condições de se opor desde a fracassada tentativa de criação do Conselho Nacional de Jornalismo. De outro lado, uma forte pressão das empresas que, em maioria, sempre rejeitaram a regulamentação da profissão ou por motivos ideológicos ou por razões de mera ordem financeira.

Somados esses aspectos todos, fica então a pergunta: quais os efeitos do fim da exigência do diploma para a qualidade do jornalismo praticado no Brasil? Temo pelo pior. O jornalismo se estrutura a partir de um conjunto de conhecimentos aplicados específicos e de um outro conjunto de pressupostos de natureza deontológica, isto é, regramentos ético-profissionais próprios. É claro que o campo profissional já incorporou às suas práticas esses dois pilares, mas a desregulamentação vai permitir que o aprendizado disso se dê fora do âmbito acadêmico, o que significa deixá-lo nas mãos de determinações de natureza mercantil. Para a qualidade do jornalismo, a longo prazo, isso é um risco. Nem mesmo a hipótese de que proliferem cursos de pós-graduação profissionais ou especializações pode dar conta dessa lacuna que se abre para o futuro.

Vamos voltar ao tema...

sábado, 13 de junho de 2009

Ensino de jornalismo: reflexão e experimentação


Terminei meu curso de Teoria de Jornalismo deste semestre com a análise de um texto de Alain Accardo publicado no Le Monde em 2000. O artigo discute duas ordens de condicionamento pelas quais os profissionais de imprensa passam no desenvolvimento de suas atividades: de um lado, as que são decorrentes dos veículos nos quais operam, em especial orientações de natureza editorial relativas às matérias de maior sensibilidade política; de outro, as que são conseqüência das demandas culturais do próprio público no qual os veículos encontram seu nicho de credibilidade e de mercado. Para Accardo, os jornalistas “não estão maquiavelicamente preocupados em manipular o público para aumentar o lucro dos acionistas das empresas em que trabalham”, mas vivem uma atuação que também através de uma série de condicionamentos quase imperceptíveis nem os deixa suspeitar que os fundamentos de sua profissão podem estar em xeque. O debate em torno do assunto, como era esperado, tomou direções diversas e penso mesmo que não chegamos a amarrar – e isso nem seria possível – qualquer conclusão categórica em torno dele.

O que me chamou a atenção, no entanto, foi a reflexão dos alunos sobre essa dinâmica que rejeita uma explicação simplista sobre o ofício que estão em vias de exercer. Foram inúmeros aqueles que, ao mesmo tempo em que se mostravam preocupados com os desafios que os espera, manifestavam uma firme determinação em aprofundar sua reflexão ao lado de um forte aprimoramento de suas habilidades técnicas. Em determinado momento, as discussões caminharam para as relações entre o curso e o chamado "mercado". A dúvida é razoável: o que nos prepara melhor, perguntam, o aprendizado operacional ou o aprofundamento de natureza téorico-conceitual que nos permite compreender os dilemas da profissão?

Ponderei com os estudantes em torno do compromisso que a Universidade tem com dois pilares que justificam sua existência: a reflexão e a experimentação. Ela não estará apta a dar conta deles se imaginar que seu espaço é o da reprodução mimética das práticas empresariais e mercantis. Isso a levaria, como o demonstram inúmeros exemplos brasileiros, a se tornar um espaço de adestramento e de reiteração das questões apresentadas no texto de Accardo, inviabilizando a formação de profissionais que superem ou entendam as determinações que atuam sobre seu trabalho. Estou convencido de que só uma sólida formação teórica e o permanente exercício da inovação experimental é que asseguram a formação do bom jornalista.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Habermas

O dossiê da Cult deste mês é sobre Jürgen Habermas. A pretexto da comemoração dos 80 anos do filósofo, que a excelente matéria de Luiz Bernardo Leite Araujo chama, com razão, de "o filósofo vivo mais importante da Alemanha", a revista recupera os passos mais importantes da trajetória intelectual do último remanescente da Escola de Frankfurt cuja presença no cenário do pensamento contemporâneo continua marcante. A rigor, Habermas só não é um marco decisivo nas Ciências Sociais e, em especial, na Comunicação, para quem não o leu. Os que se aventuraram a consultar em algum momento de seus estudos a obra com a qual é mais conhecido no Brasil, Mudança estrutural na esfera pública (1962), certamente enriqueceram seu entendimento sobre as determinações sócio-culturais dos processos comunicativos em geral e sobre a imprensa em particular.

Recentemente fui levado a retornar a Habermas em consequência de um denso debate que se seguiu à defesa de tese de Henrienne Barbosa no programa de pós-graduação da Umesp. Em determinado momento da explanação dos fundamentos teóricos de seu trabalho de doutorado, Henrienne referiu-se com muita propriedade ao diálogo que Habermas manteve, em 2005, com o então cardeal Joseph Ratzinger em torno da possibilidade de uma perspectiva comum a ser oferecida para o que então se identificava como "o derrotismo da razão moderna". Para ambos, mas especialmente para o pensador frankfurtiano - que se define como um "ateu metódico" -, esse derrotismo decorre não apenas do "cientificismo positivista", mas também de uma "modernização decarrilada" que obstaculiza o primado da Moral e da Justiça, ao lado das quais estariam tanto os ateus quanto os católicos (leia a íntegra da discussão entre Ratzinger e Habermas em la factoria)

Mais ou menos na linha do pensamento de Boaventura de Sousa Santos, o desafio desta etapa da modernidade estaria na contenção das perspectivas sedutoras do futuro e na dilatação das possibilidades humanizadoras do presente, de forma a ampliar os espaços da racionalidade tecnocientífica mas com base numa aproximação com a "consciência teológica das grandes religiões mundiais". Esse diálogo entre duas correntes de pensamento aparentemente antagônicas dá a dimensão do intelectual público em que Habermas se transformou, que chama para si a responsabilidade de propor um reesclarecimento da modernidade contra o declínio do iluminismo. É preciso conhecê-lo em profundidade para que se aproveite de suas contribuições toda a proposta de ação que elas representam para a mudança do mundo contemporâneo.

Barrar o interesse privado na Amazônia

Todos deveriam assitir o excelente documentário Corporation, de Mark Achbar, Jennifer Aboot e Joel Bakan. Mais do que a denúncia contundente sobre todo o conjunto de malefícios de natureza social que as empresas em escala global de atuação causam aos diversos países, é a decorrência da ação predatória sobre o meio ambiente do planeta que permanece como o resultado mais significativo do filme. A certa altura do documentário, o ex-CEO de uma megacorporação que atua na área da petroquímica fala sobre a existência de um imposto geracional que é sistematicamente reproduzido pelas grandes corporações, isto é, uma transferência, para o futuro, do ônus da deterioração ambiental praticada no presente. É esse mesmo executivo quem faz uma das metáforas mais belas do filme: a dificuldade em se perceber a queda progressiva quando o planador ainda está no alto. Ao se aproximar do solo é que a ilusão se desfaz e o choque do pouso se torna irreversível, ainda que suave. A relação com o tema ambiental é clara: a contundência da realidade, quando é iminente, não pode ser contornada.

O comentário vem a propósito da polêmica em torno da Medida Provisória que legaliza 67,4 milhões de hectares de terras públicas da União na Amazônia, para doação ou venda sem licitação, até o limite de 1.500 hectares. Na verdade, trata-se da oficialização de um saque aprovado pelo Senado com brechas que, segundo a ex-ministra Marina Silva (Leia aqui matéria da Folha Online sobre o assunto), podem abrir caminho para os que se apropriaram ilegalmente de terras e que, com a MP, poderiam ser anistiados. O que é visto como uma solução para o problema da legalização da posse da terra pode se tornar mais uma porteira aberta para o desmatamento da região. O problema, no entanto, me parece mais grave e de fundo: essa persistente transferência para as mãos dos interesses privados de setores de sensível interesse público atemporal (ou geracionais, para usar o conceito que retiro de Corporation), como é o caso do meio ambiente, do modelo de desenvolvimento industrial, da educação superior. O resultado, do ponto de vista da governabilidade, é sempre positivo, porque se trata da fixação de um convívio ameno e desprovido de grandes conflitos que o governo federal estabelece com os setores mais conservadores do Legislativo, entre eles os interesses ruralistas, e a sensação é que estamos todos num voo suave. No entanto, sob o aspecto das determinações de um projeto estratégico para o futuro, é o interesse público que está sendo comprometido. Não é o caso de inundarmos as caixas postais dos ministérios, do gabinete da presidência, dos parlamentares, com mensagens que repudiem a possibilidade de que a MP seja sancionada na íntegra por Lula?

terça-feira, 26 de maio de 2009

O twitter chega à Tv

Essa aparente ingenuidade existencial que caracteriza as micropostagens nas páginas do twitter parece destinada a se tornar um processo interativo de largo alcance. Pelo menos é o que deixa entrever a informação dada por um dos fundadores da plataforma, Biz Stone, segundo a qual a empresa está prestes a fechar acordos com redes de televisão dos Estados Unidos para permitir a participação instantânea dos usuários do twitter na sua programação.

Na verdade, a iniciativa apenas retoma experiências que foram feitas durante a última campanha presidencial norte-americana quando programas de debate entre os principais candidatos estiveram abertos para a intervenção direta dos microblogueiros, condicionando o comportamento público de Obana e McCain e constrangendo-os a uma saravaida de perguntas que para muitos analistas teve peso fundamental nas escolhas dos eleitores.

Não se trata de uma situação inteiramente nova, já que a interatividade permitida pelas redes sociais tem sido peça importante nas campanhas políticas. O que há de diferente com a chegada do twitter é a sua instantaneidade quase que absoluta, como se pode ver nos diversos vídeos disponíveis no site do programa Hack The Debate.

Para os entusiastas da plataforma, seus milhões de usuários (nos Estados Unidos os acessos ao twitter chegaram em abril a 17 milhões, com um crescimento superior a 80% em relação a março) são a garantia de que a proposta de integração com a Tv poderia democratizar o veículo, isto é, acabar de vez com a programação hierárquica e fechada da televisão.

Evidentemente, tudo depende do conceito que se tem de "democratização", mas é possível prever que os dias de inocência dos twitteiros (não tão inocentes assim se levarmos em conta o interesse comercial e simbólico que os microblogs já despertaram por aqui) estão próximos do fim. Leia outras fontes.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Microsoft bloqueia MSN em cinco países

Para aqueles que acreditam no caráter neutro das tecnologias da informação e em seu desapego a determinações de natureza política e econômica, a notícia é um bom motivo de reflexão: a Microsoft cortou o serviço do MSN em cinco países considerados como integrantes do Eixo do Mal, a designação que conduziu a política externa belicista do governo Bush. Desde a semana passada, os internautas de Cuba, Síria, Irã, Sudão e Coréia do Norte não conseguem acessar o programa de comunicação instantânea da empresa de Bill Gates. De acordo com o comunicado oficial do LiveSite.net, os serviços oferecidos àqueles países foram "descontinuados", um eufemismo cada vez mais presente no vocabulário da economia global. Diz o texto: "Nós confirmamos a notícia divulgada pelo LiveSide. A Microsoft descontinuou os serviços de mensagem instantânea em certos países sujeitos às sanções dos EUA".

A decisão da Microsoft de bloquear um programa gratuito com base em argumentos econômicos e políticos gerou estranheza e revolta entre blogueiros do mundo todo. Além disso, na contramão da alegada disposição de diálogo do governo Obama e da recuperação do discurso liberal prometido pela Casa Branca, a postura arbitrária da Microsoft causa tanta indignação quanto qualquer outra que viole a liberdade de expressão. Leia outras fontes.

domingo, 24 de maio de 2009

Novo jornalismo. Onde está o problema?

Dia desses assisti outra vez Capote, o belo filme de Bennett Miller sobre a vida do escritor norteamericano feito em 2005. Todo mundo que lida com o jornalismo conhece a história da criação da novela de não-ficção que se transformou num dos livros mais importantes da literatura contemporânea, A sangue frio; e não há muita coisa a ser acrescentada nem aos fatos que cercam a motivação do livro nem à maneira como Truman Capote se dispôs a narrar aquilo que ele próprio definiu como "o encontro entre duas Américas" ocorrido no crime cometido no Kansas em 1956. O que me parece ainda não suficientemente explicado e estudado são as condições gerais que permitiram o surgimento, a partir do livro, de uma nova configuração da narrativa jornalística capaz de motivar muito estudantes a abraçar a profissão e a encontrar nela um canal de expressão de sua individualidade, do seu jeito próprio de olhar e "denunciar" o mundo.

Pois lá no filme de Miller, numa cena rápida, quando Capote exercita seu imensurável ego e sua vaidade perante um grupo de participantes de uma festinha de intelectuais no Village de Nova York, um elemento me parece dilatar a compreensão da época: a música de fundo, uma execução de John Coltrane que moldura o ambiente cool em que tudo aquilo acontece. Onde está a relação entre uma coisa e outra? Está na fina percepção do diretor do filme em associar a nova expressividade musical da época - o blue modal que tomou conta da música norteamericana nos anos 50 e 60 - às também novas posturas estético-conceituais presentes em outros campos e que se caracterizaram pela psicologia da revelação e da subjetividade da arte moderna no pós-guerra. Tudo se passa como se uma sensação de esgotamento das formas convencionais das narrativas tomasse conta da cultura e de seus produtores, impulso que acabou atingindo também a literatura e o jornalismo.

Tenho insistido com os alunos que me procuram para discutir o lugar que o "novo jornalismo" - ou o "jornalismo literário" como alguns preferem - ocupa na cena contemporânea da produção da reportagem para que estudem esse contexto mais amplo de natureza cultural cuja lógica se situa fora do âmbito estrito do jornalismo. A idéia é permitir não a diluição do fenômeno que querem estudar no território ambivalente e escorregadio da cultura, mas assegurar que o entendimento dessas propostas que surgiram nos anos 50 e 60 - cuja influência nunca mais deixou de ser sentida - se dê paralelamente à compreensão de processos conceituais mais amplos dos quais a autoria da composição jornalística não se livrou.

Guardadas todas as devidas proporções, o estudo desses fenômenos é de uma forte atualidade porque eles parecem remeter, nos dias de hoje, à superação dessa verdadeira camisa de força criada pela presença dominante do jornalismo informativo como gênero que mais corresponde ao dinamismo da sociedade tecnológica. Não é um mero acaso que o interesse, portanto, se volte para o estudo e para a prática da produção textual de outra linhagem como se a comprovação de sua presença atestasse que nem tudo está perdido para o grande texto e para grande interpretação do repórter. É possível que seja isso mesmo, mas a fundamentação desse argumento precisa ser procurada também no jornalismo, claro, mas em especial nas tendências culturais contemporâneas, nas múltiplas tensões e perspectivas abertas pelas novas formas de expressão e na presença incontornável que a realidade e seus conflitos têm sobre as narrativas. É por isso que vale a pena retornar a Capote e à sua época.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Crise da modernidade


A discussão sobre a crise da modernidade, interminável e complexa, ocupou boa parte de minhas aulas neste semestre. No final das contas, são tantas as variáveis conceituais que é difícil encontrar um texto-síntese que permita observar a pertinência da teoria com o cotidiano, com o mundo percebido por mim e pelos alunos. Pois veio de Marisa Nascimento, estudante da PUC-SP, uma contribuição que considero muito proveitosa: Zeitgeist, nas edições de 2008 e de 2007. Sugiro que respirem fundo e vejam as duas.

Literatura e cinema


Muito bom o dossiê da Cult sobre a literatura norte-americana publicado no número 135 da revista. Entre os vários artigos, me chama a atenção o de Mauro Rosso sobre a eterna discussão motivada pela pergunta que dá título ao texto: “o filme é melhor que o livro?”. A polêmica, ainda que pareça bizantina, está assentada em duas ou três perspectivas de origens diferentes, todas importantes para entender a dimensão do problema.

A primeira, que, neste caso, além de primeira é primordial, diz respeito a uma longa tradição, nos Estados Unidos em especial, de transposição de obras literárias para o formato do filme, fenômeno do qual resultaram evidências bastante concretas: o cenário da ficção literária, que é multitemático e consistente em termos culturais e de mercado, tornou-se celeiro de diversos filmes (alguns deles clássicos, apontados por Rosso), invariavelmente pelas mesmas razões: a pertinência da abordagem de temas dada pela sensibilidade ou pelo oportunismo dos autores como substância que justificou a adaptação da obra. A receita do êxito de um livro não garantiu o sucesso da bilheteria, nem sempre; mas o caminho trilhado pelos adaptadores deixou a marca de uma quase hibridação entre os dois gêneros.

A outra perspectiva que alimenta a discussão é motivada pela própria reação do público e pelo efeito que tem sobre os estudos que o debate provoca no meio acadêmico. Rosso cita o professor da UCLA, Randal Johnson, para dar conta da questão. Segundo o pesquisador, a exigência de “fidelidade da adaptação cinematográfica à obra literária originária pode resultar em julgamentos superficiais que frequentemente valorizam a obra literária em detrimento da adaptação, sem uma reflexão mais profunda”. Vem dessa concepção mimética o julgamento do público: o filme é bom se conseguiu manter inalterados os elementos formais de um livro. Julgamento injusto, como se vê – a fidelidade estrita à obra literária não é e nunca foi garantia da igual densidade conceitual com que o tema é tratado em sua origem, ao contrário. Certamente por isso é que Stanley Kubrick, lembrado no artigo, afirmava que "livro é livro, filme é filme".

O último aspecto é o que me parece mais determinante no estudo do problema. A obra literária e o filme nos põem diante de duas linguagens diferentes marcadas pela natureza estruturante que o suporte técnico tem nas possibilidades narrativas que oferecem a uma e a outro. Penso que Rosso não deu a essa questão a profundidade que ela merece, embora seu artigo faça referência apropriada a um de seus elementos: a natureza estática da literatura e o caráter dinâmico do cinema, dimensões responsáveis por processos diferentes de produção de sentidos pelo público. Eu acrescentaria à discussão um outro elemento: o da menor abertura que a mediação tecnológica da obra cinematográfica oferece ao espectador em contraposição à maior abertura que a obra literária permite ao leitor.

A polêmica não é nova e já foi posta em debate especialmente por Umberto Eco, mas não é demais lembrar que o conceito de fidelidade esbarra nessa diferença estrutural existente entre os dois gêneros, de onde se deduz que a idéia de transposição literal de um para outro – do livro para o filme – inevitavelmente conduziria a uma inadequação de natureza cognitiva (como de fato conduz quando isso é tentado) que frustraria (e frustra) o público. Quer dizer, o cinema está comprometido com processos narrativos que advém de suas características e não se obriga a contar as histórias no ritmo e nos limites lineares do texto literário; apela para uma instância de percepção do espectador de origem diversa do apelo que é feito pelo livro.

Nada disso, no entanto, é irreconciliável e os roteiristas estão aí nesse papel fundamental que é o de levar em conta essas diferenças conceituais, mas a comparação que não incorpora as dimensões características da literatura e do cinema esbarra na relatividade da resposta objetiva à saudável provocação de Rosso: se o filme é melhor que o livro? Talvez sim, talvez não...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Google não quer comprar jornais. Alívio?

O principal executivo do Google, Eric Schmidt, disse em Londres que a empresa não vai comprar veículos impressos não só porque os preços pedidos pelos jornais à venda são altos demais; também porque a maioria deles está endividada. Segundo Schmidt, o Google "evita cruzar a linha existente entre a tecnologia e a produção de conteúdo". Essas informações foram dadas pelo Financial Times.

A notícia, se confirmada, pode aprofundar ainda mais a crise que os impressos atravessam já que o Google, embora não queira os jornais, tem em mãos o principal e mais acessado mecanismo de busca de notícias da internet, o Google News. Tudo se passa como um intenso processo de transferência de lucros de um setor - que gera conteúdos jornalísticos e perde receitas publicitárias - para outro - que distribui notícias e amplia sua presença no mundo da propaganda comercial. A extensão desse conflito, que afeta todo o sistema internacional de produção noticiosa, escapa dos meros mecanismos de controle do destino da propriedade autoral disponível nos sites dos jornais impressos; diz respeito a um complexo de natureza cultural que deixa os veículos tradicionais numa situação financeira insustentável, a exemplo do que já ocorre com o The New York Times.

Os editores, de seu lado, protestam e alegam que se não fosse a natureza da sua (cara) produção o Google News sequer existiria. Os fatos, no entanto, são irreversíveis em vista dos novos hábitos de leitura que se expandem na mesma proporção da universalização do acesso à internet. O que pode estar em jogo, no caso dos jornais impressos, é tanto a sua própria sobrevivência como empresas capitalistas quanto o conceito do jornalismo que produzem.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Educação e mau gosto



Não quero discutir o conteúdo do livro paradidático distribuído para as 3as. séries das escolas públicas, nem quero saber das cifras que envolveram a operação. Quero apenas ponderar sobre o extraordinário mau gosto da "obra", o caos semântico e semiótico que ela traduz, o horror das imagens. Disse o governador que o caso é mais grave que o anterior, quando os estudantes foram informados sobre 2 Paraguais e nenhum Equador num material de Geografia. Não sei se o caso é mais grave, mas certamente é muito mais feio.

Não consigo imaginar como esse embrutecimento estético e conceitual pode servir ao ensino.


Em tempo: o organizador do livro dá a sua versão dos fatos no blog dos quadrinhos, de Paulo Ramos (Leia aqui).

"A arte moderna é uma questão de fé"

O jornal La Nación, de Buenos Aires, transcreve na edição de hoje entrevista que a socióloga canadense Sarah Thornton deu ao The Daily Telegraph sobre a natureza aparentemente incompreensível da arte contemporânea. Segundo ela, a fruição das obras modernas exige um "ato de fé" por parte do observador, tantas são hoje as distinções culturais sobre o que é bonito, feio, cool ou ultrapassado. Para Thornton, que também é colaboradora da revista The New Yorker, a volatilidade dessa hierarquia de valores sobre as obras acaba por transferir para a perspectiva do observador o julgamento que as legitima acima das determinações do mercado.

Frente a qualquer instalação contemporânea, que deixa inseguros até mesmo os especialistas, a socióloga diz que sua categorização como arte ou não-arte depende fundamentalmente de uma instância desprovida de objetividade. "A arte não é ciência. Explora o mundo através do irracional e assim, o que pode ser ridículo ou incompreensível para uns pode ser também um caminho interessante de sensibilidade para outros", diz Thornton. No final, o observador está diante de apelos feitos à sua crença ou ao seu credo, o que transformaria o entendimento e a fruição de seus sentidos num ato de fé. Para a socióloga, "artistas individuais ou galerias... podem oferecer um sentimento de comunidade não muito diferente daquele oferecido por uma igreja. Existem muitos paralelos entre arte e religião. As duas, no melhor dos casos, estão em busca do significado, da beleza e da epifania na vida", afirma.

Thornton adota uma postura indiferente em relação aos códigos herméticos da crítica especializada, afirmando que essa "aparente seriedade" não é importante, exceto no meio literário ou nos círculos universitários que se alimentam de "gestos retóricos". Desde os anos 60 as universidades se converteram no principal instrumento legitimador da carreira de um artista. "Essa cadeia de instâncias consagradoras, que se traduz em prestígio, verbas, prêmios, ainda que resulte em compensações de natureza material, não é linear e frequentemente busca no sentimento do público seus elementos de sobrevivência", conclui.

O último livro de Sarah Thornton, Sete dias no mundo da arte, ainda não foi lançado no Brasil, mas figura entre os 10 melhores livros de arte nas listas do New York Times, do Sunday Times e do Independent.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Rede de intrigas... e de maldades


As cenas do contrangimento público sofrido por uma criança no programa de Sílvio Santos - já pela segunda vez - dizem quase tudo sobre a tv aberta no Brasil. O presidente do Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente do Rio ficou chocado com as imagens que viu. — "Ela aparece em situação de sofrimento, denotando ameaça a seus direitos fundamentais, especialmente a integridade psíquica — disse Carlos Nicodemos, membro da OAB/RJ: — Gostaria de saber que fundamentação o juiz usou para autorizar uma criança de 6 anos a trabalhar", concluiu. Quem assistir à gravação que circula no youtube vai poder observar a rápida hesitação inicial e a complacência posterior do auditório com a insensibilidade do animador.

O episódio faz lembrar o filme Belíssima (1951), de Luchino Visconti, no momento em que Ana Magnani, no papel de Madalena Cecconi, lamenta ter exposto a filha às engrenagens da cultura de massa.