domingo, 21 de fevereiro de 2010

Hungria

Leio na seção internacional do UOL a matéria (para assinantes) do Le Monde sobre o crescimento da xenofobia nacionalista na Hungria. O fato que motivou a matéria foi um episódio envolvendo recursos hídricos de uma província no sul do país, mas suficientemente revelador de um crescente sentimento antieuropeu capitaneado pelo Fidesz, o partido de direita de Viktor Orban, o mesmo sentimento que já motivou, como diz a matéria do Le Monde, "grande preocupação" dos principais países europeus com as posições húngaras em relação à integração na CEE.

Estive na Hungria recentemente e embora tenha sido uma viagem de absoluto lazer, duas coisas chamaram minha atenção. A primeira delas, que me parece ser uma tendência em toda a Europa, foi a obsessiva propensão para o consumo de toda a variedade das marcas globais que estão instaladas nas principais cidades do continente. Estimulados pela época do Natal e pelo período de grandes liquidações que é inaugurado ainda na última semana do ano, os húngaros, da mesma forma que os italianos, espanhóis etc em suas respectivas capitais, lotaram as lojas de Budapeste como uma massa meio sonâmbula e meio zonza, num corre-corre de fazer inveja ao nosso Magazine Luíza. A diferença, no caso de Budapeste, até onde consegui perceber, é uma espécie de voracidade pelo moderno-ocidental, como se aquela coleção de grifes pudesse compensar os anos difíceis do socialismo. Senti falta de alguma coisa ali que desse perfil consistente a um país de cultura secular, uma angústia existencial coletiva.

A segunda coisa a me chamar a atenção foi o clima pesado de permanente recuperação e exaltação do passado guerreiro dos húngaros, um clima que envolve a música, as praças públicas, a arquitetura, as estátutas erguidas aos heróis (raramente algum deles do período pós 2a. guerra mundial). Tudo ali me pareceu cansativo, triste e sombrio, como se a busca por uma identidade nacional só encontrasse correpondência na busca desenfreada do consumo, ambos igualmente insuficientes para dar aos húngaros o perfil que a Europa lhes cobra: o abandono das particularidades nacionais que desequilibram a integração política e o crescimento do poder de compra que equilibra a integração econômica.

Diz a Folha no box que acompanha a matéria do Le Monde que a Hungria só conseguiu escapar da falência provocada pela crise financeira porque recebeu um crédito de 20 bilhões de euros da União Européia, ajuda que provocou no país um plano de austeridade draconiana (estabilidade monetária mas com crescimento do desemprego e declínio do PIB), uma conjuntura rapidamente aproveitada por Viktor Orban, que promete agora para as eleições de abril (nas quais é apontado como favorito pelas pesquisas) aplicar a receita de sempre: redução de impostos, aumento de empregos e... recuperação da dignidade nacional: um prato cheio para um caldo de cultura que não se define como europeu muito menos como liberal.

3 comentários:

carlota braga disse...

nunca me arrependo de passar por aqui.
preciso aprender a escrever de forma mais sucinta, como você.
saudações.

Carlota

Lyly de Lucca disse...

É curioso como na Europa vêm crescento sentimentos nacionalistas, seja pelo aumento da população muçulmana e entrada de imigrantes ou pelas razões relatadas npo seu post.
Tenho a impressão de que a Europa é extremamente suscetível ao tipo de pensamento "umbigo-cêntrico", talvez pela história de terem sido os únicos colonizadores do mundo até pouco tempo e de até hoje serem tidos como os detentotres da cultura, da moda, do "chique".
Gostei muito do seu texto e das suas aulas.
Marília
Também tenho um blog, ainda está meio cru mas se quiser dar uma passada lá...

Juliano Schiavo disse...

Não me lembro de ter lido algo sobre a Hungria. Mas pela descrição, parece muito similar a Berlim e sua divisão oriental / ocidental, que até hoje é estigmatizada. Um texto muito bom, que dá para sentir o clima do lugar.
Abraços