segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Salinger, Eloy Martínez...

Semana passada morreu J.D.Salinger, autor de O apanhador no campo de centeio. Ontem, morreu Tomás Eloy Martínez, autor de Santa Evita. Há pouca coisa em comum entre os dois, exceto a sensibilidade para perceber o mundo e descrevê-lo sob a forma da literatura, eventualmente um campo do conhecimento que se revela mais eficaz que a própria narrativa da História.

Devo ter lido tudo o que a imprensa ao meu alcance publicou sobre Salinger e lamento ter encontrado mais referências à sua reclusão do que à sua obra, em especial ao seu principal livro (leia aqui o artigo de José Castello transcrito de O Globo e publicado no Observatório da Imprensa). Não é verdade que O apanhador inaugurou qualquer corrente inovadora na literatura norteamericana, nem é verdade que Salinger tenha provocado uma revolução estilística ou coisa semelhante.

Particularmente, vejo o livro como um registro da inquietação cultural dos Estados Unidos no pósguerra, uma espécie de linhagem que reiterou na ficção a presença do social, mas um outro lado do social - o da desconstrução dos mitos da grande sociedade afluente e seu impacto no conjunto dos movimentos de contestação que se seguiram nos anos 60 e 70. Salinger, Kerouac, Capote, Mailer, reunidos, certamente conseguiram produzir o retrato mais fiel da sociedade em que viveram.

Eloy Martínez, do seu lado, produziu a obra que, segundo penso, é a mais contundente demonstração das fronteiras entre a História e a ficção. Numa entrevista concedida a Ariel Palácios (leia aqui), o escritor argentino disse que "o passado e o público, sempre se entrelaçaram de uma forma difusa e profusa na História. Se os arquivos foram construídos por minorias letradas e os poderes ditatoriais, e se a História é uma série de exemplos que escamoteiam a verdade, como negar à novela sua versão da História? Nossa realidade por si só é novelesca! Ela precisa ser narrada por elementos mais flexíveis, e complexos". Para ele, só a literatura poderia corrigir o déficit de realidade que a História carrega consigo. Martínez fez isso em diversas obras, em especial aquelas em que buscou revelar os sentidos do peronismo na Argentina. Quem lê Santa Evita nunca mais vê a América Latina do mesmo jeito.

Esta não é a mais alegre das formas de postar meu retorno das férias, mas certamente é a mais indicada para que eu perceba mais uma vez, junto com meus alunos, o que vale a pena conhecer...

4 comentários:

Demétrio de Azeredo Soster disse...

Estranha espécie a nossa, caro amigo: lembramos de Salinger pela reclusão; de Pessoa pela heteronímia; de Maiakowski e Hemingway pelo suicídio; de Bukowski pela bebida; de Pound e Borges pela cegueira político-social; de Machado pela cor e importância, e assim sucessivamente. Bem poucas vezes, no entanto, à revelia de falarmos ou não de literatura, atentamos para o que significa a obra que eles deixaram. Talvez seja preciso amadurecermos um pouco ainda.

Juliano Schiavo disse...

Excelente postagem.

Inês disse...

Comecei a ler agora o obituário que o The Economist fez sobre ele e lembrei do seu post.

http://www.economist.com/obituary/displaystory.cfm?story_id=15450169

O texto é muito bom! Caso não tenha lido, vale a pena.

Lyly de Lucca disse...

Creio que isso advém da nossa cultura de super-valorizar a pessoa em detrimento do que ela faz. Como muitos atores que acabam se tornando famosos sem nem sequer atuar direito, mas somente por serem uma personalidade notável, não necessariamente no obm sentido.
No entanto, penso que saber sobre a vida do indivíduo colabore muito com a compreensão da obra que ele produz já que esta não passa de uma extriorização de sua visão de mundo.