domingo, 7 de março de 2010

Chile

Fiquei impressionado com o relato de Ariel Palacios e João Paulo Charleaux, no Estadão deste domingo, sobre a tragédia vivida pelo Chile. Não é uma matéria que faz o inventário da destruição física que atingiu o país, mas da onda de saques, incêndios, roubos nas lojas e nas residências praticados por setores sociais dos mais diversos. A certa altura, diz um dos entrevistados: "não estamos só sobre uma falha geológica, mas também moral". A surpresa fica por conta do aparente paradoxo que a bárbarie representa: o Chile propagou pelo mundo, na última década, a imagem de uma sociedade adulta e culturalmente desenvolvida, madura e organizada, quase européia, tudo isso com base no milagre do crescimento econômico acelerado, nas reformas liberais e em todo o receituário que estrutura as sociedades de consumo contemporâneas.

Posso estar enganado, mas a julgar pelo comportamento dos chilenos em meio ao caos, o êxito da modernização parece ter se erguido sobre um vazio de humanização e de ética social: ao primeiro sinal de risco, salvou-se quem pode. O médico Cláudio Missareli, ouvido pelos repórteres, resumiu: "Que desenvolvimento o quê... É falsa essa imagem que os governos e os empresários chilenos venderam ao mundo, de que este era um país equivalente aos tigres asiáticos. Nós não passamos de um país subdesenvolvido. Isso agora ficou claro para todos os chilenos e para o mundo. Nem no Haiti as pessoas se comportaram assim".

Nem no Haiti... com seus 300 mil mortos. No Chile, com "apenas" 800, até a classe média alta, montada em veículos de luxo, avançou sobre o comércio: "Todos roubaram de todos... O vandalismo foi protagonizado por todos", disse a prefeita de Concepción. Acho que vale a pena refletir sobre isso. De um lado, é claro, há o paradigma que julga o comportamento humano pela situação limite em que ele se encontra - e me parece razoável que diante do desespero regramentos de qualquer espécie soem como abstratos; mas há também um estatuto de civilidade que estrutura padrões de comportamento na medida de sua consolidação. Os episódios ocorridos no Chile mostram que, pelo menos ali, eles são frágeis...

3 comentários:

Juliano Schiavo disse...

É tão estranha essa sensação de que um país tido com um dos que galgam o posto de desenvolvido mergulhe nessa "guerrilha" urbana da sobrevivência.
As relações humanas, segundo Zigmunt Bauman, se tornaram líquidas. Talvez, com o terremoto, essa liquidez tenha tomado essa forma. Uma pena.

JP Charleaux disse...

Caríssmo,
Eu também fiquei triste de escrever sobre o lado triste do Chile. Mas é preciso dizer também que o país reuniu mais doações privadas do que os EUA reuniram para a tragédia de 12 de janeiro no Haiti. O número de estudantes universitários chilenos que foram às regiões afetadas prestar serviços voluntários também foi impressionante. O Chile - do meu ponto de vista - é um país muito mais organizado, desenvolvido e solidário do que a média dos vizinhos sul-americanos. Foi por isso mesmo que fiz a matéria mostrando esse aspecto tão inesperado da 'tragédia' moral. Aliás, muitos já devolveram os produtos saqueados voluntariamente, como mostra o jornal de hoje.
Abração,
joao paulo charleaux

J.S.Faro disse...

Prezado Charleaux,
Fico satisfeito com seu esclarecimento e deixo seu comentário publicado para que os leitores do post também sintam o mesmo. Minha única ressalva é quanto à devolução dos produtos saqueados. O Estadão de hoje da conta de que isso de fato aconteceu, mas sob a ameaça de represálias do exército e de indiciamento dos eventuais saqueadores identificados.
Um grande abraço.
Faro