sábado, 13 de março de 2010

Sabático

Termino a leitura do Sabático, o suplemento que o Estadão lançou hoje em meio a um fim de semana de estreia de várias reformulações do jornal. O novo caderno me anima a acreditar que o investimento no Jornalismo Cultural, vindo de um veículo que tem forte tradição no gênero, representa avanços de diversas ordens e inevitavelmente vai contribuir para que a cobertura da área ganhe em qualidade. No caso do Sabático - cuja intenção de resgatar o saudoso Suplemento Literário é abertamente declarada pelos editores -, é ainda cedo para saber como ele vai dar conta de dois desafios que já me parecem presentes nesta 1a. edição.

O primeiro deles diz respeito à concepção do projeto gráfico do produto. Não sou especialista nisso (e certamente nada ali acontece de forma improvisada), mas percebo uma excessiva concessão feita aos recursos não-verbais em todas páginas do caderno; em contrapartida uma certa espremidez dos textos, com pequenas notas, citações, listas de mais vendidos etc. Imaginei que, para uma edição de lançamento, o caderno surgisse mais provocador e menos repetitivo daquilo que já existe na imprensa brasileira, e mais ousado em termos de volume verbal, sem medo de que isso possa afastar os leitores da leitura (um paradoxo que mais me parece uma lenda), ou a revista piauí não teria se transformado no sucesso em que se transformou.

O segundo desafio remete à pauta. Também imaginei que nesta edição inaugural iria me deparar com alguma coisa relativa ao espírito do suplemento, isto é, a Literatura. Alguma coisa que falasse ao leitor sobre sua importância como forma de conhecimento do mundo, de contestação do mundo, de reprodução do mundo. Isso, claro, não quer dizer que a entrevista com Umberto Eco não esbarre nessas questões, mas o foco principal da matéria com o professor de Bologna - o suposto desaparecimento do livro enquanto suporte cultural - me pareceu requentado, até porque outros suplementos culturais já publicaram artigos do entrevistado sobre o mesmo assunto. E o restante da entrevista fica muito no plano geral das curiosidades e pouco no plano conceitual, onde me parece que a presença de Eco ancoraria mais fortemente a destinação pública do Sabático.

Tenho estudado o Jornalismo Cultural nos últimos 6 ou 7 anos em razão das atividades de pesquisa que desenvolvo na pós-graduação da Umesp. São muitas as conclusões a que tenho chegado, juntamente com meus orientandos que optaram por desenvolver projetos nessa área, mas algumas me parecem consolidadas. A principal delas: a demanda intelectual socialmente legitimada em suas várias instituições é também a força do gênero. É aí que os cadernos, seções, suplementos e veículos especializados no Jornalismo Cultural devem buscar o núcleo fundamental do que produzem - na forma e no conteúdo. Torço para que o Sabático não descuide disso...

5 comentários:

Juliano disse...

Ainda não conheci este suplemento, mas pela descrição fiquei interessado.

Roberta Lotti disse...

Concordo, Faro. Achei uma mistura estranha do "Cultura" com o "Aliás"...
Aliás, vamos tomar um café?
Saudades de você! Esses dias, reencontrei o Bruno Fiuza e relembramos os tempos do livro do SINPRO. Bons tempos!
Um beijão,
Roberta

José Gabriel Navarro disse...

Quando li este seu primeiro post, Faro, no dia da publicação, achei melhor não comentar. Mas, depois de certo tempo, devo reconhecer que é uma reflexão sadia da iniciativa do Estadão, que complementa o artigo de Alberto Dines no Observatório da Imprensa (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=581IMQ001), na minha opinião, excessivamente contemplativo. Obrigado pela sobriedade de sua análise. Abraços.

Tiago Ferreira da Silva disse...

Faro,

Dei uma olhada no suplemento e, pelo que ficou subentendido, os editores do Estadão pretendem trazer os jovens à discussão literária do jornal. Creio que isso justifica os recursos visuais da diagramação.

O Professor Chaparro fez uma densa e minuciosa análise do novo projeto gráfico do Estadão que vale a pena conferir:

http://www.oxisdaquestao.com.br/integra_integra.asp?codigo=414

Gostei da tua página. Ganhaste mais um leitor.
Abs,
Tiago

MAFPortugaels disse...

Sou leitora do Estadão e adorei o Sabático, mas concordo com o comentário que o Prof. Faro faz sobre os desafios do caderno, no que concerne ao projeto gráfico e à pauta. Li com avidez a entrevista com Humberto Eco, por quem tenho grande admiração e respeito, mas confesso que esperava que a matéria fosse mais dirigida para discussão mais profunda, mais específica sobre o palpitante assunto que é o destino do livro tradicional diante da revolução tecnológica que trouxe o livro eletrônico. Também concordo que nada abalará a existência do livro de papel, uma vez que, como disse Humberto Eco, ele faz parte dos objetos úteis que vieram para ficar, mesmo que outras invenções correlatas apareçam, as quais, no final das contas, não passarão de acessórios sofisticados que enriquecem o conceito que defendem, mas que jamais o substituirão.