domingo, 11 de abril de 2010

Pesquisas aprofundam Jornalismo Literário

Duas dissertações orientadas por mim foram apresentadas no Póscom da Umesp neste mês. A primeira, sobre as narrativas da revista Brasileiros, foi desenvolvida por André Mazini; a segunda, sobre as matérias da revista piauí que têm como foco a existência de personagens anônimos da vida brasileira, foi feita por Francilene de Oliveira. Os dois pesquisadores parecem representar uma tendência que se observa de maneira recorrente entre os estudantes de jornalismo e mesmo entre aqueles que se dedicam à pesquisa depois de formados: a investigação sobre processos discursivos que rompem com os padrões convencionais da produção noticiosa e caminham na direção daquilo que entendo ser a mítica da atividade profissional: a investigação em profundidade que ganha a forma da expressão individual do repórter, sua percepção sobre os processos e sobre os fenômenos que o cercam.

Se há essa crença generalizada de que é nessa perspectiva que a atividade jornalística se encontra em sua forma mais autêntica, por outro lado, percebo uma postura mais realista e mais crítica entre aqueles que a estudam: a preocupação em identificar as condições gerais - do ponto de vista cultural, sociológico e até mesmo linguístico - que permitem uma produção investigativa mais densa no terreno da narratividade. Refiro-me aqui à associação crescente entre duas dimensões do problema: de um lado, a pura sensibilidade expressiva do profissional; de outro, o compromisso com aquilo que Cremilda Medina (que integrou a banca da dissertação de André Mazini) chamou de "dialogismo social", isto é, um comprometimento que deixa a forma - eventualmente marcada por aproximações com as técnicas da produção literária - mais próxima do conteúdo, ou seja, com aquelas pautas reveladoras das tensões sociais mais dinâmicas da vida que se pretende narrar. Para Medina, é justamente a partir dessa ponderação que perde força um certo envaidecimento personalista que pode ofuscar a dimensão do jornalismo investigativo de perfil literário e ganha destaque a "descentralidade" da autoria em benefício da pluralidade de vozes que caracterizam o gênero na atualidade, pelo menos em suas manifestações mais consequentes e ricas. Ênfase semelhante foi a que deu Edvaldo Pereira Lima (na banca de Francilene de Oliveira) ao comentar a força genérica da representação dos personagens anônimos nas matérias da piauí e seu vínculo com um cotidiano que extrapola o ambiente das meras curiosidades temáticas e excentricidades estilísticas em favor de uma signficação maior de sua constituição marcadamente social.

Acredito que as mais recentes pesquisas sobre o Jornalismo Literário vêm acompanhadas dessa amortização do deslumbramento estético em favor de uma percepção mais aguda de sua produção. Nesse sentido, as duas dissertações apresentadas, por força da competência exclusiva de seus autores, representam uma excelente contribuição para a discussão na área da Comunicação.

Leia a nota publicada no site da Academia Brasileira de Jornalismo Literário sobre o trabalho de Francilene de Oliveira.

2 comentários:

Juliano Schiavo disse...

Oi Faro, tudo bem? Vou fazer uma pesquisa sobre a personalização das reportagens na revista Terra da Gente. E, para tanto, vou me aprofundar sobre o jornalismo literário e de que forma os repórteres se posicionam nas matérias. Este será o trabalho de conclusão da minha pós. Muito bacana este texto em seu blog. Abraços

Matheus Nahkur disse...

Faro, peço licença para desviar o foco e recomendar a leitura deste artigo de Washington Araújo: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=586JDB003

Abraços!