sábado, 22 de maio de 2010

As estantes das livrarias e a Comunicação

Acho que temos em São Paulo duas ou três boas livrarias. Temos bons sebos, mas livrarias mesmo, dessas que são referência para consulta dos melhores lançamentos na área da Literatura, das Ciências Humanas e das Ciências Sociais, só duas ou três. As outras são redutos de uma irracionalidade que afasta todos aqueles que gostam de livros, a começar pela ordem que decidiram estabelecer em seus mostruários: por ordem de assunto, não por ordem de autores. Estive dia desses numa dessas "mega store" que fantasiam os shoppings centers da capital. Diante da estante de literatura estrangeira, perguntei ao vendedor onde eu poderia encontrar o romance O fantasma da prostituta, de Norman Mailer. Como os livros estavam dispostos por assunto, a resposta ficou difícil para o atendente. Depois de consultar seus colegas, o gerente, o caixa, ele me veio com esta: "prostituição... deve estar na secção de sociologia, mas como tem fantasma no meio, veja na seção de autoajuda, ou de religião, ou de espiritismo".

Penso que livrarias são um termômetro da circulação dos padrões de leitura e da importância que o mercado dá a esses padrões. De alguma forma, nos limites do que é possível perceber do comportamento dos consumidores, o responsável por essa experiência que vivi está pouco ligando para a correta disposição de uma obra de Norman Mailer. Afinal, quantos foram os que indagaram sobre esse autor de maneira que justicasse uma mudança na apresentação das obras ? O que importa é afluência provocada pelo marketing das listas dos mais vendidos, um certo capricho na "vitrine" e uma sensibilidade aguçada para as tendências dos leitores. Com esses critérios, ninguém vence a autoajuda ou um best seller que virou novela ou filme, ou - um pouco mais excepcionalmente - boas biografias, testemunhos etc. Reunindo tudo, esses fatos são de uma pobreza intelectual extraordinária.

A coisa fica pior quando o assunto são os livros acadêmicos. Passo nas livrarias (incluídas aqui aquelas duas ou três que considero boas) e sempre pergunto - quando ainda não sei - onde está a estante das obras de Comunicação. Invariavelmente, não há nas livrarias uma seção dedicada a esse assunto. Quando há, ela é mirradinha, ocupa uma prateleria só, beirando o carpete da loja, com alguns poucos exemplares de algum livro sobre propaganda, um outro sobre como "falar bem diante do público" ou sobre "exercícios para cartas comerciais". Técnicas de redação ou livros de português que levam o nome de "Comunicação e Expressão" encontram aí o seu lugar.

Onde estão as nossas pesquisas? Estou há mais de dez anos envolvido com a pós-graduação em Comunicação. Não é muito tempo, se levarmos em conta as médias dos meus colegas que têm maior senhoridade do que a minha; mas é tempo suficiente para que eu tenha lido uma enormidade de teses e dissertações, coletâneas de textos, revistas nacionais e estrangeiras, capítulos de livros, todos vendo a si próprios como manifestações científicas daquilo que existe de mais atual e polêmico no universo das mídias, das novas tecnologias, das narrativas, das intermináveis crises pelas quais passa a cultura da contemporaneidade, mas nada disso está disponível para o público. É uma produção voltada para dentro da própria área do conhecimento, salvo as raras exceções que representam um traço percentual diante do volume de estudos feitos na Universidade.

Sei que esse critério exclusivo não é justo para definir a importância da produção científica, que pode ser relevante, tenha ou não sido editada, esteja ou não nas livrarias... mas é possível que esse excesso de esoterismo de objetos a partir de perspectivas herméticas e intrincadas pode estar esvaziando a relevância pública dessa produção. E a irrelevância pública da produção acadêmica de uma área do conhecimento tão sensível na atualidade como é a da Comunicação pode ser fatal para a sua sobrevivência, ainda que em termos quantitativos ela tenha crescido em níveis bastante elevados nos últimos anos. Aprendi com Habermas que as livrarias foram um instrumento importante para a consagração de temas no interior da sociedade civil a partir dos quais seus integrantes argumentam e deliberam. Imagino que um olhar criterioso sobre o circuito de métodos de estímulo e de qualificação do que a Universidade produz pode apontar uma outra possibilidade para que essa origem não se perca. Afinal, esse jeito destrambelhado e empobrecido das livrarias pode não ser de culpa apenas delas.

Um comentário:

Juliano Schiavo disse...

Talvez este tipo de disposição esteja relacionado a forma como são dispostos os alimentos em supermercados. O mercado tem forte apelo nisso tudo. Esconde obras. Dá visibilidade a outras que não tem a mesma profundidade, porém tem aceitação (pela mídia, a princípio).

Aqui em Americana/SP - cidade com cerca de 200 mil habitantes - nem livraria tem. Uma vergonha.

Abraços