domingo, 2 de maio de 2010

Ilusões pedagógicas

Pela 3a. vez consecutiva estou participando da experiência com Projetos Integrados (PIs) em cursos de graduação. O nome diz tudo, mas é conveniente detalhar um pouco o que vem a ser isso. Trata-se de uma proposta adotada nos últimos anos pelas coordenações pedagógicas de vários cursos em muitas instituições e traduz uma filosofia de ensino. Formula-se um projeto que consubstancie a prática dos estudantes em torno de uma atividade relacionada com a formação profissional que escolheram e em torno dele, de forma convergente e interdisciplinar, todos os professores e todas as professoras se articulam para que o resultado final acabe traduzindo a integração das várias áreas do conhecimento com as quais o aluno toma contato no período letivo em que se encontra. O resultado esperado é que, na concretização do projeto, transpareça a qualificação acadêmico-experimental do estudante.

Os PIs são, há muito tempo, uma obsessão de extração construtivista que vêm ocupando espaço crescente em todos os níveis da educação, primeiro no ensino fundamental e médio; agora, no ensino universitário. Seus pressupostos, mesmo relevando a simplificação que fiz acima, são admiráveis e correspondem à noção que avança sobre as práticas pedagógicas contemporâneas segundo a qual é preciso eliminar a fragmentação do conhecimento em favor de um corpo unificado de práticas e de reflexões conceituais que deem conta da complexidade do saber.

Descrita assim, essa proposta que vai se tornando uma espécie de "pensamento pedagógico único", é sedutora. Vistas as coisas de perto, no entanto, para que um PI interdisciplinar seja possível, dois problemas indicam que a Universidade brasileira pode estar corroendo a qualidade de formação de seus alunos e desqualificando a atividade docente.

No primeiro caso, o que tem sido chamado de "integração multi ou interdisciplinar" funciona em muitas instituições como uma operação que reduz vários campos do conhecimento a uma condensação operacional que sacrifica a reflexão analítica e teórica em benefício da funcionalidade aplicada dos PIs. Em outras palavras: abordagens superficiais que transformam os fundamentos de várias disciplinas num universo acanhado de referências que só são aceitas pelos alunos porque os PIs são sempre associados à promessa de que se trata de um adestramento para o mercado e é nisso que ele encontra sua legitimação, digamos, social. A rigor, os PIs multidiscplinares podem não estar preparando ninguém nem para uma coisa nem para outra: nem para o desenvolvimento apurado de habilidades profissionais, nem para a reflexão conceitual em torno daquilo que é feito. Se isso for verdade, o esforço que muitas instituições estão fazendo resulta em produtos que não estariam muito longe de práticas vividas (e eventualmente melhor situadas) em escolas técnicas de nível médio.

No segundo caso, o da atividade docente, minha curta experiência com as atividades multidisciplinares demonstra que a agenda semestral dos PIs - que é a maneira como as estruturas modulares dos currículos são implementadas nos períodos letivos - verdadeiramente atropela conteúdos fundamentais que precisam de maturação para que possam ser vistos em todas as suas dimensões, antes que sejam aplicados. Como a idéia que norteia os projetos é a sua verificação conclusiva, é a função do professor que acaba sendo submetida a critérios que não são os seus. Bem.. pelo menos originalmente não seriam (ou não deveriam ser) os seus. No final das contas, de um e de outro lado, a concepção de interdisciplinaridade termina por perder a riqueza que lhe dá origem, malgrado o empenho e a fundamentação com que é trabalhada pelas coordenações pedagógicas, e os resultados obtidos não vão muito além dessa recorrente repetição daquilo que o tal mercado já faz.

Penso que a Universidade "só" serve para duas coisas: reflexão e experimentação, ambas em dimensões temporais que funcionam de um jeito diferente do tempo do mercado profissional, que é imediatista e mimético. Seria muito bom que todos os professores envolvidos nessas práticas verficassem em que medida as duas condições são atendidas nas formulações atuais dos PIs e procurassem acertar seu passo com projetos menos fragmentados e mais abrangentes na vida acadêmica dos alunos.

Um comentário:

Ramon" disse...

Salve mestre. Realmente os PIs acabam atropelando os conteúdos fundamentais para a melhor compreensão dos temas sobre jornalismo e tantos outros campos abordados por essa profissão. Fui seu aluno de jornalismo noturno 2006-09. Qualquer dia irei ver uma aula para matar as saudades. Abraços