quarta-feira, 28 de julho de 2010

Enem II

Dois acréscimos necessários à postagem anterior sobre o Enem. O primeiro deles refere-se a uma tentativa de definir a concepção que vem alimentando há anos (é bom lembrar que desde a gestão Paulo Renato no MEC) a variedade e a periodicidade das avaliações em todos os níveis de ensino: tudo indica que se trata de uma perspectiva pedagógica voltada para o momento presente e inspirada numa versão performática da aferição do conhecimento dos estudantes. O que temos assistido é uma corrida de obstáculos onde a quantificação dos resultados, os percentuais, as curvas de Gauss, o ranqueamento das escolas, operam como uma representação simbólica de virtudes imanentes à sua existência, isto é, são coisas boas em si mesmas porque mostram racionalidade e eficácia quantitativa de gestão, uma espécie de êxtase da burocracia.

Isso não é pouca coisa, ainda mais se levamos em conta que essa lógica se espalha por todo o sistema educacional e seus agentes, inclusive os educadores. Ora, penso que qualquer processo de avaliação deve estar fundamentado num ponto futuro, isto é, numa estratégia que pense aonde a Educação Nacional precisa chegar como projeto público, como instância de formação de quadros para o desenvolvimento social, eventualmente pulando fora da reprodução sistêmica do que já existe. Numa tal ordem de fatores, o performativo pode (e deve) ceder lugar ao qualitativo, a um tipo de avaliação que meça um outro tipo de desempenho, mais reflexivo e de maior densidade intelectual. O Enem está muito longe disso.

O segundo acréscimo vem da lembrança feita em comentário do jornalista Francisco Bicudo sobre a inserção da rede pública nesse processo, menção que deixei em aberto na postagem anterior. Minha experiência pessoal com estudantes do ProUni - muitas dezenas de alunos nos últimos anos, na PUC-SP e na UMESP - não atestam essa ineficácia trágica da escola pública como os resultados do Enem querem demonstrar; ao contrário: tem vindo desses alunos boa parte da exigência de qualidade com que enfrentam o desafio da universidade privada. Esse fato pode demonstrar que o seu desempenho sofrível nesse modelo de avaliação  pode não representar a medição de seu preparo cultural. Se isso é verdade - e só uma apuração cuidadosa em torno do assunto poderia confirmar -, o modelo de escola que o Enem consagra e legitima só poderia mesmo estabelecer a distinção que a mídia se encarregou de enfatizar: a escola particular é boa; a escola pública é ruim. Fica a pergunta: o que é bom e o que é ruim nesse conjunto de variáveis?

Um comentário:

santos disse...

Farão, muito agradecido pela referência. Avaliar é preciso - a questão é saber como conduzir esse processo, com que propósito estratégico estimulamos essa dinâmica, qual o ponto de partida e a linha de chegada, quais ajustes serão promovidos ao longo do percurso, se preciso. Não é assim? O nó a desatar é que se criou um círculo vicioso e nefasto: o governo divulga números; a mídia repercute tabelas e rankings; as escolas que "foram bem" correm para comemorar e faturar com a divulgação de suas peças publicitárias; os pais correm afoitos para ler essas listas e buscar vagas para os filhos nas "boas/melhores" escolas; já aquelas que "foram mal" se apressam em mimetizar as receitas de sucesso daquelas que estão no topo das listas, para aumentar o número de matrículas; no ano seguinte, a diferença de pontos entre as primeiras colocadas é menor ainda, e a competição se acirra sucessivamente - e selvagemente. Nessa dinâmica utilitarista, que procura clientes e não cidadãos, modelos e apostilas são reproduzidos (estão dando "certo", não?), perdendo de vista a dimensão da formação crítica e universal. Para fechar o circuito, solidifica-se, ideologicamente, midiaticamente, o maniqueísmo "escola privada/escola boa/topo da tabela x escola pública/escola ruim/rabeira databela"), tese que o ProUni, como você muito bem destaca, tem ajudado no mínimo a questionar. Abração e obrigado! Fran