quarta-feira, 28 de julho de 2010

Enem

Dia desses, trocando ideias com minha amiga jornalista, fiz breves reflexões sobre o estardalhaço que os resultados do Enem provocaram na mídia (ainda agora, o maior grupo de Educação privada do Brasil agride os leitores com anúncios de página inteira que procuram justificar a maquiagem que fez para que seus alunos se saíssem bem na prova - leia mais). Na ocasião, disse a ela que a discussão sobre as causas do desempenho dos estudantes deste ou daquele estabelecimento não me parece fundamental. Basicamente, entendo que há algum consenso sobre o conjunto de fatores que levam os alunos a obter melhores ou piores resultados, entre eles aquele que há bastante tempo foi legitimado pelos especialistas como um dos mais importantes: as condições de trabalho dos professores.

Penso que o Enem remete a uma outra discussão: a dos efeitos eventualmente negativos que sua existência tem como critério de valoração sobre a qualidade do ensino. Refiro-me ao fato de que esse exame geral, para que cumpra com sua natureza universal, é obrigatoriamente reducionista do ponto de vista dos conteúdos que devem ser exigidos nesta etapa da vida escolar, isto é, as provas obedecem a um tal nivelamento que não há segurança em dizer que alunos melhor classificados estejam efetivamente preparados nas áreas do conhecimento em que foram avaliados, de onde deduzo que o Enem pode na verdade estar conduzindo a um mediocrização geral do aprendizado, já que o padrão de referência com o qual a escola trabalha deixou de ser o da emulação dos melhores vestibulares do país. O que conta agora é a disputa pelo reconhecimento público (e publicitário) de um certo tipo de excelência, tão duvidosa que algumas universidades (coincidentemente as melhores) hesitam em aceitar os resultados do exame em suas provas de seleção.

Essa inversão de propósitos me parece ser a razão pela qual as escolas que disputam suas marcas no mercado da educação promovem desfigurações em seus currículos e mobilizam seus alunos mais em torno de exercícios de adestramento do que em torno do conhecimento, evidentemente com a criação de uma mística de sucesso que absorve todos, inclusive os professores.

Não rejeito a ideia de um sistema de avaliação em qualquer nível do ensino, mas fico com o pé atrás diante dos depoimentos que a mídia recolheu dos sujeitos que mais se destacaram nessa última versão da prova: dos estudantes e dos seus pais, do simbolismo quase aristocrático das mensalidades das escolas mais bem sucedidas, de coordenadores, todos os discursos giraram em torno de uma coisa que me parece de um vazio intelectual extraordinário.

E não pode faltar uma última observação: levados em conta como padrão de referência na formação dos alunos do ensino médio, os resultados divulgados acabam reiterando a falência do ensino público e da hegemonia da escola privada. Será mesmo assim, quer dizer, a garantia do bom ensino está localizada no reduto das empresas de educação, não restando outra alternativa senão o modelo que temos praticado? O Enem pode estar consagrando social e ideologicamente essa perspectiva... mas essa é uma outra conversa.

3 comentários:

santos disse...

Farão, mais uma vez, ótimo texto, que nos chama à reflexão. Modesta sugestão - desenvolver, em próximas oportunidades, a ideia final do post ("essa é uma outra conversa"). Minha também modesta leitura é que de fato o Enem tem muito mais servido como instrumento ideológico de sustentação da mercantilização do ensino e de legitimação do discurso que diz que a "educação de qualidade está apenas concentrada no setor privado"; perde, assim, a efetiva possibilidade de avaliação do conhcimento crítico produzido no ensino médio. Disponibilizei o texto no twitter, para socializá-lo. Abração! Fran

Marcio Hasegava disse...

Olá, professor. Gostei deste post e o indiquei no meu Tumblr: http://umpulha.tumblr.com/post/902672347/. ABS!

Juliano Schiavo disse...

O Enem, tal como qualquer prova de vestibular, é reducionista. Sempre me vem a cabeça do texto de Rubem Alves "Sob moluscos e homens", que reproduzo um trecho:
"A memória não carrega conhecimentos que não fazem sentido e não podem ser usados. Ela funciona como um escorredor de macarrão. Um escorredor de macarrão tem a função de deixar passar o inútil e guardar o util e prazeroso. Se foi esquecido é porque não fazia sentido. Por isso acho inúteis os exames oficiais ( inclusive os vestibulares ) que se fazem para avaliar a qualidade do ensino. Eles produzem resultados mentirosos por serem realizados no momento em que a água ainda não escorreu. Eles só diriam a verdade se fossem feitos muito tempo depois, depois do esquecimento haver feito o seu trabalho. O aprendido é aquilo que fica depois que tudo foi esquecido..."