domingo, 11 de julho de 2010

Mas em Barcelona...

Essa história da final da Copa do Mundo e de todas as virtudes que a imprensa em geral tem destacado sobre a seleção da Espanha me fez lembrar uma afirmação feita por Regis Debray no final dos anos 90: na democracia contemporânea, disse ele, as assembleias são realizadas cotidianamente nos saguões dos shopping centers. Eu acrescentaria que os "eleitores" estariam (se é que já não estão) divididos não entre partidos políticos tradicionais, mas de acordo com as bandeiras de seus cartões de crédito, uma versão pós-moderna dos títulos de eleitor. Fico imaginando cenas surreais de polarização entre seguidores do Visa e seus rivais do Mastercard, discutindo teses apresentadas em alguma praça de alimentação pelo partido American Express.

Pois eu acho que a Copa do Mundo (uma versão virtual de um imenso centro de compras), com essa marca hegemônica das grifes esportivas, do espetáculo midiático e com a internacionalização das equipes, já não é mais a representação simbólica de países que competem pelo título; e a própria cerimônia de abertura de cada jogo com a execução dos hinos nacionais ficou anacrônica. Afinal, qual é a bandeira do Cacau que brilhou na seleção alemã: a brasileira, a germânica ou a dos seus patrocinadores? Ou as bandeiras não representam mais o que pensamos que representam ou serão outras as bandeiras deste novo tempo...

Agora mesmo, quando se aproxima o momento em que caminhamos para o jogo derradeiro, um dos times que disputam o título mundial talvez sintetize esse universo de contradições que a imprensa perde a oportunidade de explorar e explicar. Na Espanha, na véspera da partida final, os catalães saíram às ruas (estima-se em um milhão o número de manifestantes) em protesto contra a declaração de inconstitucionalidade do estatuto de autonomia de Barcelona (leia aqui a matéria do El País), cidade cujo milionário time principal oferece à seleção "nacional" uma boa parte dos atletas. Afinal, qual é a Espanha que disputa a Copa? Faria muito bem aos torcedores conhecer melhor esse emaranhado de contradições culturais, ainda mais num país cujo projeto de superação da crise econômica vai exigir enxugamentos dramáticos e draconianos das políticas de bem-estar social que deverão ser postas em prática pelo PSOE e que podem acabar servindo de exemplo para muitos outros países.

Isso tudo não tira o brilho do futebol, nem obscurece o talento dos times, a garra dos atletas, a plena emoção de tudo o que aconteceu na África do Sul, mas é sempre melhor saber exatamente ao quê estamos assistindo. Esse universo de elementos extra-campo, que interferem naquilo que  Wisnik (citando Pasolini) apontou como a dinâmica da racionalização da prosa versus a espontaneidade da poesia, pode muito bem acabar esfriando o rito ancestral e mágico que se apodera das torcidas e transformar sua essência em mera representação de consumo desprovida de toda a energia dramática que fez a sua história.

Em tempo: leia aqui o texto de Gustavo Chacra, no Estadão de 15 de julho: De Barcelona a Beirute: catalães preferem independência à Copa do Mundo.

2 comentários:

Geso disse...

Ótima análise, professor! Muito pertinente.
Sou mestrando em comunicação (Unesp) e já li algumas de suas pesquisas sobre jornalismo cultural, área que também pesquiso. Sua visão é uma contribuição ao meu trabalho.

Abraço e boa semana!

Juliano Schiavo disse...

Faro, não há como negar que "as assembleias são realizadas cotidianamente nos saguões dos shopping centers". O mercado tem sua força, modelando a cultura. Mas é necessário lembrar que ele não é tudo. Também sofre influência de fatores socioculturais e, assim, se adapta.
Adorei sua análise.