terça-feira, 12 de outubro de 2010

Bienal: arte, urubus e candidatos

El alma nunca piensa sin imagen, de Roberto Jacoby: realidade política supera o efeito de representação da arte ou é tudo a mesma coisa?
Estou impressionado com os desentendimentos que surgiram nessa 29a Bienal de São Paulo. É uma impressão positiva porque é saudável que uma exposição dessa natureza mobilize de alguma forma a opinião pública e me parece que esse sempre foi o objetivo da arte: retirar o apreciador - ou o público - do estado de letargia em que vive e mobilizá-lo em torno de algum ponto de vista expresso pelos autores das obras. Sob esse aspecto, a Bienal demonstra vitalidade, ainda que o hiper-realismo e o excesso de significação dos trabalhos expostos possam estar confundindo os visitantes da mostra.

Mas essa impressão positiva é relativizada por uma outra, agora negativa: a incapacidade de vários segmentos da sociedade em metabolizar o impacto das obras que têm um reduzido índice de prefiguração do efeito (acabo de ler o livro de Marcelo Coelho, Crítica cultural: teoria e prática, e concordei inteiramente com o tratamento que ele dá a esse conceito), isto é as obras apelam mais à inteligência do que à concordância. Quando isso ocorreu - e parece que vai continuar ocorrendo enquanto a Bienal durar -, o gesto foi o da censura - emotiva ou institucional. É o caso, por exemplo, do tal presidente da OAB que pediu a retirada dos trabalhos de Gil Vicente (aquele que mostra o próprio autor executando personalidades públicas), ou a determinação da curadoria da Bienal em esconder o trabalho A alma nunca pensa sem imagem do argentino Roberto Jacoby pela referência que faz a Dilma e Serra, o que seria proibido pelas normas do TSE.

Ora, qual é o entendimento que esse pessoal tem da arte? Qual é o limite da liberdade do artista? Penso que nenhuma restrição é possível de ser justificada, com a única exceção da pobre figura dos urubus - porque entendo que nem ao artista é livre a manipulação da vida. E nesse caso é de vida que se trata. Fica o registro.
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Em tempo: no final das contas, os urubus foram retirados da Bienal por determinação do Ibama, que desautorizou a permissão concedida anteriormente para o encarceramento das aves. Isso já era esperado. O que ninguém esperava é que o público (parte dele, pelo menos) protestou contra a liberdade das aves. Leia aqui a matéria publicada no Diário Catarinense.
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2 comentários:

Juliano Schiavo disse...

Faro, adorei a análise. Muito lúcida.
Forte abraço

Demétrio de Azeredo Soster disse...

Fico me perguntando se é dos urubus que falamos quando nos manifestamos contrários à sua, digamos assim, prisão, ainda que o objetivo (das grades) seja causar espécie, e não prender espécie (com o perdão do trocadilho). Mas lembro, sobretudo, de Ferreira Gullar, não necessariamente nestas palavras: ainda que o objetivo da arte seja provocar impacto, dasacomodar, tudo o que provoca impacto e desacomoda é arte? Grande abraço!