sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Dilma

Em 2002, exatamente no dia 23 de outubro, escrevi um texto intitulado Domingo. Com exceção de minhas alunas e de meus alunos aos quais eu distribui a crônica privadamente, nunca me animei a postá-la em lugar algum e nem mesmo uma página pessoal eu tinha para isso. O tempo, no entanto, mostrou que a pequena reflexão feita às vésperas da eleição de Lula naquele ano tinha uma lógica razoável, já que o resultado das urnas permitiu ao Brasil, nos últimos anos, uma aceleração histórica de vários de seus processos, demonstrando algum tipo de vitalidade social que foi na contramão de todas as piores previsões feitas na época, invariavelmente atreladas à ideia de que um presidente da República com a origem e as marcas ideológicas de Lula levaria o país ao descontrole. O resultado foi o que se viu nesses últimos 8 anos.

Agora temos pela frente um outro domingo e me parece que alguns dos dilemas propostos em 2002 voltam a ser discutidos. O principal deles, no entanto, não está posto no debate eleitoral: a incapacidade das elites nacionais, em assumir - ou sequer propor - um projeto de modernização da sociedade brasileira compatível com o nível da nossa riqueza. Essa elite, em especial aquele segmento que se sustenta ideológica e materialmente no apoio empresarial, imagina que reformas econômicas, desenvolvimento, inserção na globalização, incremento da produtividade e do comércio, são propostas que podem ser implementadas sem a contrapartida da distribuição estrutural da renda, marca que ela (a elite) trouxe consigo pelo menos nos últimos 2 séculos. Somos podres de ricos (alguma coisa como o décimo PIB mundial), mas somos também podres de desigualdades (alguma coisa semelhante aos países mais inviáveis da África).

Penso que foi esse o paradoxo que murchou a candidatura Serra, não por ser ele a figura complexa que é, mas por representar um caldo discursivo que a estabilidade econômica criada pela própria elite em nome da racionalidade do capital acabou por esvaziar. Não ouvi muitos programas políticos durante a campanha, mas aqueles que ouvi - e aquilo que li - me permitiram constatar que o candidato do PSDB correu desesperadamente atrás de um adequação com a realidade o tempo todo. Acho que ninguém ignora que se ele chegou até aqui não foi por obra de alguma profunda representação social do que diz, mas de uma circunstância eleitoral que o favoreceu. Bem vistas as coisas, a correspondência entre o que Serra proclama e as demandas sociais não daria um 2o. turno, o que significa dizer que se não fosse a Marina Silva, a disputa estaria encerrada faz tempo.

Vejo na Dilma muita fragilidade, mas não vejo esse descompasso de projeto que vejo no Serra. Ela me parece mais afinada com um imperativo de mudanças, com uma social-democracia  mais aguerrida, com a manutenção de iniciativas que dão voz às camadas mais profundas da nossa estratificação social, estimulam uma necessidade de acomodamento entre o PIB e o bem-estar que abre caminho para novas perspectivas, mesmo com a ressalva do aparelhamento do Estado, das concessões ao capital financeiro nacional e internacional e da sua própria habilidade política em lidar com essa coisa toda. Mas quem é que estaria em melhor situação? Nem a Angela Merkel...

Vou votar na Dilma. Deixo de lado essa bobagem do aborto, contraponho a Erenice às denúncias sobre a licitação das obras do Metrô, comparo a pósgraduação dela com o diploma do Serra etc e verifico que por baixo dessa loucura toda há uma lógica que me convence. É um domingo diferente daquele de 2002, mas é um bom domingo...
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6 comentários:

José Gabriel Navarro disse...

Mais um texto excelente e — melhor — distante dos clichês alardeados pelos dois lados. Sóbrio.

Flávio disse...

Me assusta professor, que meus colegas de sala vejam as candidaturas de forma tão diferente (e que agora sei) da nossa, e prefiram o Serra.

Juliana Olivieri disse...

Faro,
sinto falta de suas aulas e análises. Gostei do texto! Abraços,
Juliana

Anônimo disse...

Belo texto, mas mesmo assim sinto um profundo desapontamento com o PT. Brigou tanto para chegar lá e se comportou como a "elite", só que ao invés de governar para os ricos apenas tirou o que era do povo ( vide os casos de corrupção )e seus mentores, lideres e figuras principais se tornaram ricos. Genuino, Palloci, Zé Dirceu.. o que dizer ??? Por acaso eles governaram ou pensaram nos pobres ?
Nem entro na questão do PSDB, para mim mais do mesmo e que no poder não vai fazer diferença nenhuma. O que ninguém entende é que os ideais que marcaram o PT morreram, o PT se tornou mais um partido, e os ideais hoje se encontram no PSOL, se encontram na vontade da Marina e do PV em mudar algo.
Acho que está na hora de uma renovação politica, sem PT e sem PSDB, e sim com uma politica que nos faça sonhar com um Brasil diferente...

Marcio Hasegava disse...

Excelente texto, professor.

Anônimo disse...

Professor,

Após seu brilhante texto sobre o motivo por qual apoiava a Dilma, gostaria de deixar algumas perguntas :

1 - Genoino recebe convite para ser acessor de defesa -
Ele não estava envolvido com corrupção das boas ? Voltou como se nada tivesse acontecido ??



2 - E o Palocci ? Gostaria de saber também...


3 - Expansão do aeroporto provavelmente sera feita através de privatização - Como o senhor ve isso ? Afinal o PT falou tão mal da privatização que achei que essa palavra nem existia no vocabulario deles...


A Dilma nem assumiu direito e já está fazendo isso ?
Voltando corruptos para o poder com o apoio dela e cogitando novas privatizações...

Será que ela foi a escolha certa ???

Obs : Não acho que o Serra também seria a escolha certa...

Abrçs...