sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Censura às avessas...

Acabo de ler no site de O Globo uma notícia curiosa: segundo orientação do MEC, O livro de Monteiro Lobato, Caçadas de Pedrinho, vai continuar sendo usado em sala de aula.... A manifestação do ministério vem a propósito de uma recomendação feita pelo Conselho Nacional da Educação para que a obra fosse retirada das escolas, fato que desencadeou uma justificada onda de protestos. Para acomodar a situação, Caçadas de Pedrinho chegará aos alunos (e aos professores) acompanhado de "uma explicação sobre o contexto em que foi escrito". O objetivo é evitar que as abordagens racistas de Lobato sejam aprendidas ao pé da letra pelos estudantes.

Penso que tanto a recomendação do CNE quanto a tal nota explicativa exigida pelo MEC são duas manifestações de uma censura às avessas e uma inadmissível intromissão do Estado na liberdade de criação e de fruição da obra de arte. Aplicadas com rigor a todo o conjunto da produção literária que povoa o ensino em todos os níveis, ambas as restrições - a do Conselho e a do próprio MEC - seria preciso fazer, logo de cara, uma releitura de todo o romantismo de Alencar, de Macedo; e a todo o realismo de Machado; sem falar em obras universais como as de Stendhal, Zola, Dickens etc, já que, sem exceção, todas traduzem conceitos de natureza ético-política próprios da conjuntura cultural em que foram criadas. Imagino o que aconteceria com A cabana do pai Tomás; com a Bíblia então...

Não vejo no CNE nem muito menos no MEC competência intelectual para decisões dessa natureza. E o que é pior: imaginar que a leitura da obra de Lobato (feita de forma analítica como eu suponho que ocorra nas escolas com essa e com todas as obras de todos os autores de todas as épocas) possa se contrapor ao avanço que a sociedade brasileira registra no campo da legitimidade cultural, política e jurídica das relações raciais é subemestimar o próprio processo educacional, enventualmente o próprio amadurecimento experimentado pela sociedade brasileira.

Acho que não precisamos disso, ou ninguém entendeu a reprovação geral que as manifestações de preconceito no twitter ocorridas nesta semana receberam?
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Em tempo 1
: depois de postado o comentário, lembrei de O mercador de Veneza, de William Shakespeare. Lá pelas tantas, já diante do Doge que vai presidir o direito que Shylock, um judeu, reivindica de cobrar o naco de carne que lhe é devido, o personagem Antonio diz: "Por obséquio, refleti que tratais com um judeu. (...) o que pode ser mais duro do que um coração judeu?".

Ocorreria a alguém censurar Shakespeare como anti-semita? E no entanto, O mercador de Veneza é uma obra prima da literatura universal, entendido no seu tempo e fora dele como um retrato da cobiça versus a Justiça, apesar da marca que pesa sobre Shylock.
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Em tempo 2
Leia também o texto de Aldo Rebelo, Monteiro Lobato no Tribunal literário, publicado na Folha (7/11/10).
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6 comentários:

Cristine Bartchewsky disse...

Esse é o tipo do preconceito que existe só na cabeça de algumas pessoas. Se referir a um negro como "carvão" é preconceito, mas a um branco como "branquelo" ou "leite" não. Não entendo essas classificações malucas... Então muita música estaria condenada por ter os termos "nêga", "neguinho"...

Bruno Hoffmann disse...

É tentador ficar contrário à proibição do livro a priori, mas levar materiais considerados racistas para crianças, sem o professor ter condição de rebater as ideias racistas do livro, é algo a ser levado em conta. Enfim, não faço ideia do que achar. E quanto ao seu último parágrafo, aí discordo bem. Houve uma enxurrada de reprovação ao racismo no twitter justamente porque houve uma enxurrada (menor, mas enxurrada) de comentários racistas. O nosso racismo ainda é extremamente naturalizado. Extremamente. Neste ponto de vista, o livro de Monteiro Lobato seria mais uma forma de naturalizar o racismo.

Bruno Hoffmann disse...

Cristine, não, o racismo não está na cabeça de algumas pessoas. Está na cabeça de todos os brasileiros, porque é no racismo que está baseada a sociedade brasileira. Sobre os nomes, etc, é simples. Houve um povo que foi escravo durante 4/5 da nossa história. E ao chamá-los de "carvão" há uma intensa carga pejorativa e de perpetuação do racismo. Perpetuação porque existe absurdamente até hoje. Basta ver a cara da elite brasileira. Ou, melhor: até a cara da classe média nacional. Certamente, não é uma cara preta. O maior inimigo do combate ao racismo é acreditar, como você acredita (mesmo que não seja por mal), que é algo que está na cabeça de algumas pessoas, que é algo que não impede nenhum negro de crescer na vida. Enfim, deixo uma entrevista que fiz com Zulu Araújo. Não foi um papo muito estenso, mas desmitifica algumas questões. Também sugiro que leia um manifesto de alunos da UFRGS a favor das cotas raciais e que explica os privilégios que temos por ser brancos. Abraços. www.almanaquebrasil.com.br/papo-cabeca/e-impossivel-o-brasil-ser-democratico-sem-superar-o-racismo

Bruno Hoffmann disse...

Digo, um papo eXtenso, obviamente = )

Anônimo disse...

Quem é contra a não recomendação (o que nunca quis dizer proibição) nunca foi o coleguinha pretinho da sala...

Juliano Schiavo disse...

Faro, excelente suas colocações acerca deste assunto.