domingo, 21 de novembro de 2010

Luz e sombra

Uma arte por onde escapamos (C. Tezza)
Termino a leitura dos 3 primeiros capítulos do livro de Adalberto Cardoso, A construção da sociedade do trabalho no Brasil. A obra tem sido objeto de discussões no âmbito acadêmico e motivou uma pequena polêmica do autor com Pedro Charadevian, que resenhou o livro no suplemento EU& Fim de Semana do Valor Econômico de 17 de setembro passado. Contrariado com o que leu sobre sua obra, Cardoso publicou, no mesmo veículo (edição de 29 de setembro), uma réplica bastante contundente ao que disse Charadevian. Foi por conta desse embate que me apressei em ler o livro, uma contribuição que já considero bastante consistente em torno de uma questão que é fundamental: a modernização do Brasil construída com profundos índices de desigualdade social que mais explicam e legitimam do que contrariam o papel do Estado e das classes dominantes nesse processo. Recorrendo a "uma sociologia historicamente informada, que por vezes dialoga com a economia e outras disciplinas...", como ele próprio definiu sua pesquisa, Cardoso oferece uma contribuição muito boa para o entendimento das contradições nacionais no presente.

Meu comentário prematuro - pois que ainda não concluí a leitura do livro - se deve à observação feita em post anterior por Bruno Hoffmann a propósito da persistência do racismo na vida brasileira. Para Bruno, ingenuidade minha imaginar que uma obra como a de Monteiro Lobato não sirva para reiterar elementos simbólicos de discriminação racial entre os estudantes, caso não seja acompanhada de uma severa capacidade de contextualização dos professores, de onde se justificaria a medida tomada pelo MEC na semana que passou (leia aqui).

E o que isso tem a ver com o livro de Adalberto Cardoso? Praticamente tudo. O autor de A construção da sociedade do trabalho no Brasil produz em sua obra uma das melhores análises que conheço sobre o conjunto de variáveis que determinaram, desde a existência da escravidão, o processo de segregação racial que nos acompanha há quatro séculos simultaneamente com o aprofundamento da desigualdade no âmbito do trabalho. Ainda que sua pesquisa esteja voltada essencialmente para o enquadramento dessa questão nos planos econômico e político, não falta ao autor a sensibilidade de estender e apontar à simbologia da discriminação do negro uma das causas da persistência da desigualdade na esfera social inteira. É como se a modernização socialmente assimétrica que se ergueu na história caminhasse numa esfera de ambivalência entre luz e sombra - riqueza e pobreza a um só tempo.

Sou levado a reconhecer, portanto, que Bruno Hoffmann tem razão e que em meio à aparente inocência da literatura infantil podem se reproduzir todas as marcas dessa construção simbólica da discriminação, ainda que eu insista na impropriedade de que as manifestações literárias sejam policiadas por conta disso. Mas o Estado é que não pode ficar indiferente... e me parece adequado, diante disso, que uma advertência aos professores que lidam com o problema - não no sentido de reprimenda, mas de lembrança - sobre o contexto da obra, sobre os possíveis significados que constrói, devam ser cautelosamente observados...

É de Cristovão Tezza, nesse seu último livro - Um erro emocional - uma bela síntese da duplicidade com que vivemos essa marca cultural que só agora é que parece vir à tona. Transcrevo:

Para o homem brasileiro, e ele se lembrou da patriotada do crítico que no entanto volta e meia lhe voltava à cabeça justo para lhe quebrar a cabeça, para nós brasileiros o afeto físico é parte integrante do reconhecimento do mundo e de si mesmo, enquanto para um estrangeiro essa sensualidade emotiva e derramada que não separa nada de coisa nenhuma e vive de abraços, beijos e tapinhas nas costas é um objeto intangível de admiração, um desejo inalcançável de paraíso, um canto irrecusável de sereia. Pobres franceses, americanos, russos, coreanos, bolivianos, húngaros: jamais serão brasileiros, por mais que tentem, era o corolário daquela catilinária mestiça. E no entanto, nos matamos, à sombra, como nenhum outro. Luz e sombra".
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Um comentário:

sylvia moretzsohn disse...

Faro, depois de muito tempo (e muitas atribulações neste novembro), passo de novo por aqui e deparo com este comentário. Gostei, vou procurar o livro. Subscrevo também, integralmente, suas observações quanto à polêmica em torno do livro do Monteiro Lobato, no post anterior. Claro que a literatura infantil (como qualquer literatura, aliás) pode reproduzir as marcas da discriminação e dos vários preconceitos, mas afinal a literatura reflete as contradições do tempo em que é produzida. É ou não é? Eu cresci lendo Monteiro Lobato e isso foi fundamental pra mim. Também fui obrigada a ler Polyanna Menina e Polyanna Moça... quem sabe as polianas é que são boa literatura. "Educativa", no pior sentido do termo. Sabe o que mais? Esse pessoal politicorreto não é apenas insuportável: é muito tacanho.