domingo, 13 de março de 2011

Ondas tardias da descolonização

Há dias em que o touro é quem leva a melhor
Os jornais andam cheios de declarações contundentes feitas por líderes ocidentais sobre o que está ocorrendo no Oriente Médio e em países do Norte da África. A sensação que tenho ao ler esse material é a de que os governantes dos EUA e da Europa, pegos de supresa com as explosões populares que tiveram início na Tunísia e que agora têm o seu epicentro deslocado para a Líbia, correm atrás do tempo e disputam   entre si e no próprio interior desses movimentos, um lugar de primazia para que alguma condução sua, ou sob sua hegemonia, seja dada ao quadro de mudanças e às novas configurações de poder nesses e em outros países. A história, naturalmente, não se repete, mas essa afobação diplomática que já chegou à ONU lembra muito os equívocos cometidos ao longo de todo o processo de descolonização que atingiu aquelas regiões no século XX.

Certamente foi a partir dessa constatação que o jornalista Simon Jenkins advertiu no Guardian para que o Ocidente se mantivesse distante dos acontecimentos do Egito logo nos dias que antecederam a queda de Mubarak (leia aqui). Para Jenkins, qualquer forma de ingerência nos acontecimentos internos do país não seria mais que reproduzir uma tentativa de manter sob controle sociedades que buscam sua autodeterminação. Pois eu penso que é justamente essa palavra - autodeterminação - que parece ganhar força redobrada neste 2011, uma bandeira insistentemente empunhada no pós II Guerra e que representava uma conquista que foi inviabilizada pelas potências vencedoras do conflito em 1945 em nome da geopolítica adotada para toda a região sob o manto protetor dos blocos de poder ou da modernização capitalista.

Esses dois processos que atuaram de maneira convergente em todo o Oriente Médio e no Norte da África permitiram a emergência de grupos dirigentes militares ou autocratas que retiravam sua força do apoio que recebiam das superpotências, da sustentação financeira que lhes dava o petróleo, da importância estratégica de seus países no quadro geral da Guerra Fria e de sua posição a favor ou contra o Estado de Israel. O resultado era a constituição de regimes políticos que sacrificavam as promessas da independência e do bem-estar social em favor de um unitarismo interno (Egito, Líbia, Iraque) que tinha na religião (Irã) ou na forma monárquica (Arábia Saudita, Bahrein) a sua principal lógica de Estado e de governo.

Tudo indica que o que está acontecendo agora é a culminância de um movimento que pretende concluir aquilo que foi sistematicamente adiado - ou contornado - nesse longo período. Por isso, é um desaviso das principais lideranças ocidentais imaginar que seja possível controlar a explosão dos movimentos populares que têm marcado os acontecimentos recentes. Meu ponto de vista é o de que esse tabuleiro dinâmico que ocupa as manchetes dos jornais tem como pano de fundo não apenas um realinhamento político interno para cada uma das nações atingidas, mas uma explosão de conteúdo social e democrático que precisa ser compreendido em toda a sua profundidade.

Em tempo: recomendo a leitura do artigo sobre o tema, de autoria de Antônio Negri e Michael Hardt, também publicado no Guardian
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Um comentário:

José Gabriel Navarro disse...

Bela análise, Faro. Sinto falta de certo respeito, por parte dos ocidentais, à autoctonia desses países e, principalmente, desses povos em processo de redescoberta e reconquista de seus direitos reais e de sua identidade real.