domingo, 27 de março de 2011

"Agregar valor à tecnologia..."

Homem Vitruviano,
uma visão multidimensional da tecnologia:
é disso que a Escola precisa
O Estadão do domingo 13 de março reproduziu uma excelente entrevista com Diego Leal, apresentado pelo jornal como especialista e consultor colombiano de ensino (leia aqui). O tema da entrevista - o papel das redes sociais e das tecnologias da informação e da comunicação (tics) na Educação - já começa a causar algum cansaço entre os educadores brasileiros, não tanto por sua recorrência nos diversos fóruns em que o assunto é discutido, mas pela monótona repetição de todas as eventuais conclusões que essa discussão provoca. Posso evidentemente estar enganado, mas há poucas dúvidas sobre a necessidade que a Escola tem de inserir em suas práticas didáticas e pedagógicas o recurso sistemático tanto às redes quanto às tics, sob pena de ser atropelada pela realidade das ruas, isto é, pelo mundo vivido fora das salas de aula, em especial pelo mundo vivido pelos estudantes - eventualmente muito mais dinâmico do que essa discussão acadêmica que a entrevista com Leal retoma.

Mas o entrevistado faz uma provocação nova. Lá pelas tantas, diz o consultor colombiano respondendo a uma pergunta sobre as ameaças que o mundo virtual representa para os docentes nas instituições de ensino: "... se um professor pode ser substituído pela tecnologia, então deve sê-lo. É um princípio duro, mas faz sentido. Se um professor não está agregando valor ao que pode fazer a tecnologia, não há dúvidas de que seu papel está ameaçado". Aí é que está: possivelmente, feito o reconhecimento de que a presença das tics em todos os níveis do cenário cultural é incontornável, e de que sua utilização na Escola já está consagrada, o desafio é o da incorporação de valor (suponho que Leal refira-se ao conhecimento) a essas práticas, o que significa ultrapassar a etapa da lógica instrumental da tecnologia em direção à suas possibilidades reflexivas.

Não sei como isso se processa na Colômbia, mas no Brasil, até onde consigo perceber, não é exatamente o professor o principal obstáculo para que essa travessia se processe, mas a própria Escola, tomada já faz tempo por um espírito de mensuração quantitativa das práticas didático-pedagógicas que subtrai do docente sua autonomia intelectual - esta sim, a chave que permitiria a ele (o docente) usar a técnica como recurso emancipador do estudante e não como instrumento meramente utilitário. A razão que  me parece explicar os motivos pelos quais isso esteja ocorrendo é o deslumbramento operacional que as tics naturalmente provocam e que, na Escola, assumiu o sentido de uma corrida de obstáculos pela modernização dos recursos didáticos, em alguns casos com o puro objetivo do merchandising.

Parece ser suficiente para a comprovação disso a observação de como o trabalho do professor tem sido exigido - um "postador" de textos, um produtor de slides e um interlocutor formal em salas de bate-papo, onde às vezes é substituído por um "tutor" cuja intimidade com os temas em discussão é quase nenhuma -, para que se compreenda qual é o verdadeiro empecilho da agregação de valor de conhecimento ao uso das tics. Se há uma responsabilidade bastante negativa das instituições de ensino nisso ela é certamente essa dicotomia que vem sendo criada no ambiente educacional: um sistemático reducionismo do papel do professor nos projetos de incorporação das tecnologias e sua transformação em apêndice instrumental dos novos recursos... e com uma carga de trabalho que deixa qualquer um espantado.

É claro que a repórter não ponderou com o consultor colombiano essas variáveis da realidade brasileira, mas teria sido saudável que o fizesse - ou o que ele dirá nos eventos de que vai participar aqui pode apenas ser entendido como mais uma dessas diversas "culpas" que os professores carregam nas costas por conta da inadvertência com que as escolas - e muito pedagogos - lidam com o problema da agregação de valor às tecnologias da informação e da comunicação.
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2 comentários:

Anônimo disse...

Boa noite professor. Semana que vem estarei em um evento em que participará o sr. Leal. Vamos ver se consigo levar alguns considerações sobre a realidade brasileira...
abs
Alexandre

Anônimo disse...

oi professor

Quando li esta entrevista fiquei muito intrigada, porque até então não conhecia Diego Leal. Agora, amparada por seus comentários, vejo a relevância das observações do entrevistado em relação a modernização rasteira sem a devida reflexão. Sai caro, muito caro!

forte abraço
Katarini