quarta-feira, 16 de março de 2011

Fatalidade não explica tudo...


Usina de Dai-Ichi: escolhas políticas erradas
ampliaram o desastre
É possível que a pior consequência desse desastre que atingiu o Japão não decorra propriamente das causas naturais já suficientemente conhecidas, mas das escolhas políticas no uso da energia nuclear como uma das principais fontes de abastecimento daquele país. Matéria divulgada pelo jornal britânico The Guardian informa sobre as críticas que o Partido Liberal Democrata fez, desde 2008, à atuação do ministério japonês da Economia, Comércio e Indústria na estratégia adotada na política nuclear, em especial nas questões de segurança (leia aqui). Segundo documento divulgado pelo site Wikileaks, o governo japonês ocultou da opinião pública e de setores especializados na segurança do setor energético os riscos de armazenamento de materiais radioativos frente a alta atividade sísmica do país. Os beneficiários dessa imprevidência foram as empresas proprietárias das usinas.

É claro que muita coisa virá à tona nos próximos dias e meses, eventualmente nos próximos anos, até que se conheça a extensão dessa irresponsabilidade que externaliza o risco de contaminação em áreas muito distantes do Japão, e é até provável que ocorra uma revisão global do uso da energia nuclear em outros países, mas o registro de que há por trás desses acontecimentos uma variável de natureza política que, uma vez evitada, poderia ter reduzido os custos humanos do desastre, serve para a compreensão de que o mundo não está diante de uma fatalidade, como o senso comum insiste em  afirmar.

Esse é um aspecto do problema. O outro, que considero igualmente relevante, refere-se a essa dupla dimensão que a racionalidade tecno-científica (para usar uma expressão de Boaventura de Sousa Santos) adquire na contemporaneidade: um instrumento de ampliação dos níveis de bem-estar e de domínio da natureza, de um lado; mas também um instrumento de "regulação" das próprias formas de vida. Essa ambivalência do mito do "progresso" - que tem na energia nuclear uma de suas principais conquistas - pode explicar o estilo de civilização cuja fragilidade fica evidenciada agora no Japão mas que está presente em todo o projeto global de crescimento econômico.

Em tempo:

* Segundo o jornal El País, nos últimos 35 anos, o Japão só revisou três vezes as medidas antisísmicas de suas usinas nucleares. Saiba mais.

* Fukushima reabre o debate sobre o uso da energia nuclear. Leia aqui a resenha que o presseurop faz sobre o que a imprensa europeia publica em torno do assunto.
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