segunda-feira, 14 de março de 2011

Gerações para o alfabeto inteiro

 John Mallof
Visite também o acervo catalogado das obras de Vivian Maier
em artsy.net
Dia desses, pelo motivo da morte de alguma personalidade de destaque no mundo da cultura, diversos jornais não conseguiram evitar o lugar comum de sempre: "fim de uma era". Esse é um recurso retórico que  tem mais relação com cacoetes dos textos jornalísticos do que com o impacto que o desaparecimento de alguém possa ter de fato com rupturas históricas, já que as "eras" vivem sistematicamente terminando e começando ao sabor de qualquer evento. Naturalmente, esse é um rigor cobrado por quem as entende (as eras) como períodos cujas características se estruturam densamente em vários setores da atividade social e a morte de uma personalidade quase nunca é um acontecimento capaz de, por si só, encerrar ou inaugurar uma nova etapa na complexidade dos processos históricos.

A observação vem a propósito de um tema recorrente na área da Educação: a emergência da Geração Y. Acabo de assistir a um vídeo (veja aqui) divulgado pelo site Plug Edu cujo objetivo é descrever as características dessa geração e, ao mesmo tempo, advertir para o impacto que sua chegada às salas de aula tem na qualificação e na metodologia de trabalho dos professores. Entendo a intenção dos realizadores do filme e, em linhas gerais, também compreendo a amplitude da discussão sobre os traços culturais que marcam a geração atual dos estudantes de todos os níveis de ensino, da mesma forma como considero importante sua discussão. Mas percebo que a mitificação que predomina na análise do problema acaba criando desvios graves de interpretação que mais atrapalham do que esclarecem.

Exemplifico: Invariavelmente, a Geração Y tem suas peculiaridades explicadas a partir de elementos comparativos com as gerações que a precederam, exceto no quesito mais ressaltado, a tecnologia. Para os grupos denominados como Baby Boomers (anos 40 e 60) ou Geração X (anos 70 e 80) prevalecem os destaques relativos à sua formação familiar ou níveis de independência pessoal; já para a Y essas características são deixadas de lado e substituídas por sua proximidade com as tecnologias da informação, fato do qual deriva a necessidade de nivelamento dos professores com seus referenciais. Em outras palavras: entender a Geração Y e trabalhar com ela no âmbito do ensino só seria possível a partir da compreensão de sua ansiedade, da velocidade no acesso à informação, dos seus novos códigos de cognição do mundo.

Tenho a impressão de que as coisas não se passam exatamente assim, pelo menos não no âmbito da Universidade, já que as características apontadas para os estudantes de agora me parecem traços universais das gerações de todas as épocas, naturalmente guardadas as especificidades das conjunturas em que viveram. Mitificar essas peculiaridades e buscar para elas uma saída exclusiva que contorne o fato essencial da organização do conhecimento promovida a partir da referência intelectual em que o professor deve se constituir, me parece uma proposta tão diluidora da docência quanto inoperante do ponto de vista do processo da aprendizagem. E o que considero mais grave: isso pode acabar reiterando uma prática que vem se ampliando de forma crescente em todos os níveis - a perspectiva do uso meramente operacional da tecnologia em detrimento da reflexão e do aprofundamento do estudo. Penso que essa é uma receita que deve ser evitada: é possível que a tal Geração Y só seja mesmo um enigma quando avaliada a partir do nosso deslumbramento a-crítico com as tecnologias da informação e da comunicação.
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2 comentários:

Dylan do Lajeado disse...

Professor Faro, li uma entrevista na revista E, do SESC,não me lembro agora de quem, e o entrevistado tinha uma opinião bem parecida com a sua. Bem legal sua análise. Com certeza é preciso evitar a predominância do técnico.

Elsa Villon disse...

Acho que o problema principal que muitos Geração Y acabam dando baile nos docentes mais conservadores, que encucados, fazem o que podem fazer para definir e limitar: criam teorias.