domingo, 15 de maio de 2011

Faulkner, entre outros...

William Faulkner
Nobel de Literatura em  1949
Não acredito que possa existir qualquer sólida formação acadêmica nessa área da Comunicação (e em todas as suas driblagens operacionais) sem um mergulho profundo na literatura do século XX. Dia desses participei de mais uma discussão sobre reformas curriculares e outra vez me deparei com esse "esquecimento" com o qual trabalham os operadores do ensino. Tudo está previsto: a interdisciplinaridade, as práticas laboratoriais, a tal inserção no mercado, e até mesmo algum verniz de extração humanista geralmente concebido para dar sustentação às formações profissionais específicas (como é o caso das "histórias" de qualquer coisa). A única providência que não faz parte da planilha (de cargas horárias, de atribuições, de ementas etc) é a posse da narrativa ficcional como instrumento, não propriamente de conhecimento positivo do mundo, mas daquilo que o Prof. Tarquini me lembrou numa aula da pós-graduação: a cognição sensível - ainda que o conceito tenha uma aplicação diversa daquela que dou a ele aqui neste post.

Tudo isso para dizer que terminei a leitura de outro livro de William Faulkner - Luz em agosto, da Cosacnaify - e que mais uma vez me surpreendi com a abrangência humana dos tipos e das situações que o autor inventa para nos dizer o que é a maldição da intolerância. Acho que Faulkner é mesmo, como disse Vinicius Jatobá no Portal Literal, uma espécie de amálgama que traz consigo todas as correntes expressivas do romance contemporâneo, mas - diria eu - em especial a da novela social ancorada na tragédia do sul profundo dos Estados Unidos. É como se o personagem principal do livro, Joe Christmas, à semelhança de Coleman Silk, de Roth na era Clinton, me fizesse enxergar onde mora a origem daquela euforia fascista que se seguiu ao anúncio da morte de Bin Laden. Uma mesma linha de apreensão que vem de John Dos Passos, passa por Sinclair Lewis e Steinbeck e desemboca em Capote, Mailer e Updike. Para ficar na ficção estadunidense.

E aí ouço meus colegas professores maldizerem, junto comigo, das dificuldades que enfrentamos com os textos de nossos alunos; da raridade que é encontrar uma exposição consistente e coerente de ideias, com esse apego aos lugares comuns e às frases feitas que preenchem suas manifestações aplicadas a qualquer ofício para o qual estejam sendo adestrados. Talvez fosse preciso apontar uma lacuna que está mais abaixo: a atrofia generalizada da sensibilidade para o real, mais do que essa crítica recorrente que fazemos ao déficit instrumental da linguagem que quase todos demonstram.

Aí é que está. Sou muito cético em relação à perspectiva de que essa falha possa ser sanada com reformas de natureza pedagógica - porque é possível que a própria Pedagogia já tenha sido contaminada com essa tendência -, mas penso que vale a pena discutir qualquer abertura, mínima que seja, para um novo enfoque dessas formações todas na área da Comunicação; uma meia-volta que resgate a leitura descomprometida com o método, sem discussões, um silêncio que acompanhe cada final de parágrafo para dar lugar à respiração. Só isso...
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2 comentários:

José Gabriel Navarro disse...

Faro, que prazer voltar aqui e reencontrar a mesma clareza de pensamento. Concordo totalmente com a proposta.

Abraço!

Paula Franco disse...

“Leia mais!” Este foi um conselho repetido quase que diariamente pela minha ex-chefe do meu primeiro estágio em Jornalismo (Obrigada, Thais Naldoni!). A frase, dita como se fosse uma ordem, é, na verdade, o melhor conselho que um estudante pode receber.
Mas a questão é que muitos estudantes de Comunicação pensam que ao devorar livros de jornalistas e profissionais da área – e decorar frases, termos, expressões, passagens e nomes – é a maneira mais fácil de se destacar no mercado. E não é.
A (boa) leitura não se resume apenas aos manuais de redação e autores da área. Ano passado, ao mostrar um livro de Joel Silveira a um professor, este me disse: “Você não precisa ler isto. Leia os clássicos, leia livros de filosofia, leia outras coisas.”
As técnicas jornalísticas aprendemos fazendo, realmente. Claro que a universidade dá a base para isso. Mas o “além do texto” só existe se há bagagem cultural; mentes abertas; variedade.