quarta-feira, 27 de julho de 2011

Entre Washington e Oslo...

Chego das férias sob o impacto dessa variedade de notícias ruins que tem povoado os jornais nos últimos dias. Na verdade, movido pelo compromisso de atualizar meu blog já empoeirado depois de 30 dias de inatividade, nem sei por onde começar. A primeira impressão diz respeito a essa safadeza que a direita republicana promove contra a elevação do teto da dívida pública dos Estados Unidos. Imagino que a maioria das pessoas esteja acompanhando a extensão das consequências desastrosas de uma derrota de Obama nessa queda de braço com os conservadores: a eventualidade de um calote provocado pelo estrangulamento financeiro do governo de Washington - que teria que optar entre não pagar seus compromissos com os bancos e demais credores ou suspender investimentos públicos de natureza social -, não teria qualquer efeito exclusivamente local e certamente arrastaria toda a economia internacional para um abalo sem precedentes na História. Sobre esse assunto, recomendo a leitura de dois textos publicados em edição recente do site Carta Maior: os artigos de Paul Krugman (Podemos estar perto de reviver a crise de 1930) e de Joseph Stiglitz (A crise ideológia do capitalismo ocidental).

A segunda impressão gira em torno desse episódio ocorrido na Noruega. Com as poucas pessoas com as quais pude rapidamente trocar ideias sobre o fato, me chamou a atenção um certo conforto - até mesmo algum alívio - com a individualidade da chacina cometida por Anders Breivik, isto é, sua natureza desorganizada e dissociada de algum tipo de articulação partidária nazifascista, como se isso pudesse diminuir a gravidade de seu significado. Particularmente, vejo isso de maneira um pouco diferente: o isolamento de Breivik, sua solidão assassina, a metodologia minimalista e doentia com que planejou a matança, está longe de se circunscrever a uma patologia psíquica individual. Ao contrário: dois jornais europeus - um de Varsóvia, outro de Amsterdam - tomam o cuidado de inserir a análise do que aconteceu na Noruega no âmbito de uma cultura de radicalismo intolerante que se amplia no cotidiano europeu, eventualmente encontrando nele (no próprio cotidiano) e alimentando-o de elementos ideológicos que o legitimam. Também sugiro a leitura desses textos resenhados pelo site presseurop: Nova extrema-direita: o miúdo da porta ao ladoPopulismo: manusear com cuidado e Inocência perdida do modelo norueguês.
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Um comentário:

Anônimo disse...

oi Professor,
ótima colocação, mas eu não tinha me atentado tanto ao caráter individual do massacre, mas sim ao aspecto do ódio e da intolerância que sempre saltam aos olhos. Sobre o assunto, inclusive, o Aliás da semana retrasada trouxe uma entrevista interessante, ainda que intrigante no preconceito, com um tal historiador Marcus Buck. Ele coloca em xeque o multiculturalismo como política na Europa e levanta questionamentos. Se ainda não viu, segue http://www.estadao.com.br/especiais/alias/2011-07-31

abs
Katarini