segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Londres, desinformação e preconceito...

Londres,  agosto de 2011:
 uma visão recusada pela irrealidade da desinformação
Estou espantado com as mensagens que recebi depois da postagem que fiz, pelo twitter, do vídeo com a entrevista que o sociólogo Sílvio Caccia Bava concedeu à Globo sobre as motivações dos conflitos que ocorrem em Londres nas últimas duas semanas (veja aqui), a maioria delas de incredulidade sobre os argumentos do entrevistado e com alguma dose de certificação das razões dos repórteres. Digo que estou espantado não tanto pelo número de mensagens, mas com o ceticismo que os que me escreveram manifestam em relação à possibilidade de que seja verdadeiro o ambiente de caos social existente na periferia das principais capitais do mundo, eventualmente as mais ricas.

De duas possibilidades, apenas uma deve ser verdadeira: ou o volume de informações disponíveis na rede sobre o fundamento das reivindicações dos movimentos sociais e étnico-raciais é mentiroso, ou - apesar da sua veracidade - aqueles que os desmentem andam reconstruindo o mundo mais a partir da irrealidade dos pré-conceitos da mídia tradicional de massa do que dos fatos. Como a primeira hipótese é construída de forma desproposital - pois que seria inimaginável um estoque de registros falseado dessa realidade contemporânea, resta trabalhar com a possibilidade de que os repórteres que entrevistaram o sociólogo na Globo reproduziram o puro e simples despreparo intelectual de sua audiência... de onde se origina a simplificação grosseira de que os acontecimentos na capital britânica são obra de "vândalos".

Evidentemente, os conflitos em Londres não são o único fato revelador desse déficit legitimado de desinformação com a qual o  jornalismo atual trabalha em inúmeros veículos (nas últimas duas semanas, por exemplo, os que se dispuserem a analisar como as economias nacional e internacional foram tratadas terão em mãos um prato cheio dessa tendência), mas pela evidência do processo social e pelo dinamismo das imagens que ele produz - com pouquíssimos apelos a qualquer tipo de especialização - , me parece que a gravidade do problema se manifesta aqui e não em qualquer outra editoria: falta perspectiva histórica às matérias que tratam do contemporâneo. É disso que se trata. E essa perspectiva falta porque o foco dos cursos de jornalismo, com velhas ou com novas diretrizes, com ou sem revisões curriculares ou de projetos pedagógicos, continuam patinando numa concepção instrumental que os empobrece de forma extraordinária. Vamos voltar a esse assunto, mas só esse desencontro entre as duas perspectivas com as quais a realidade vem sendo vista por grande parte dos estudantes já seria motivo de uma grande discussão nas escolas.

Em tempo: ainda sobre Londres, recomendo a leitura das matérias especiais publicadas nos blogues Carta Maior e Outras Palavras.
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Um comentário:

Maria disse...

Obrigada, gostei muito do seu texto. Trouxe mais um ponto de vista à análise dos acontecimentos. Tive uma conversa bastante acesa no Facebook com pessoas que preferiam ver os motins como a reacção de uns meninos mimados, habituados a viver com os subsídios do estado, que queriam simplesmente roubar telemóveis e roupa de marca. Senti que havia algo profundamente (mas talvez também inconscientemente) racista nesta abordagem. "São pretos e já recebem subsídios. Que mais é que querem?". Quando há três anos atrás a morte de um jovem pela polícia resultou em motins em Atenas (onde não faltou o oportunismo e os vandalismos), todos na Europa perguntavam: "O que é que a juventude grega nos quer dizer?". Esses não eram meninos mimados... Obrigada mais uma vez pelo seu texto. Se não viu este vídeo, vale a pena ver: http://www.youtube.com/watch?v=biJgILxGK0o&feature=youtu.be