quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Autoria de mais, apuração de menos

Inovações editoriais podem sacrificar o jornalismo
Semana passada conclui um artigo (que ainda sai publicado até o fim do ano) no qual trabalhei a ideia de que o jornalismo atual, entre os vários problemas que enfrenta, sofre as consequências daquilo que alguns autores chamam de "descentralidade da autoria", isto é, uma perda de referências da hierarquia intelectual que o texto tem no conceito da própria atividade jornalística e junto à audiência. A ideia não é nova, claro; nova é a hipótese com a qual trabalho nesse artigo: essa descentralidade da autoria representa uma espécie de desencanto do público.

Explico: o declínio da marca autoral em diversas editorias (em especial, trabalhei com a hipótese aplicada ao Jornalismo Cultural) tem como resultado um estranhamento do leitor (quando falamos dos impressos), acostumado à empatia clássica e tradicional com o veículo e com o colunista, com o repórter que assina a matéria etc. A perda dessa centralidade - que se traduz na hierarquia apontada acima - por conta da pulverização das fontes de informação, acaba por "esfriar" a relação entre os dois polos. Isso é ainda motivo de pesquisa rigorosa, mas penso que há fundamento na hipótese...

Tudo para fazer notar o exemplo do jornal El País, que considero um dos melhores diários do mundo pela qualidade das coberturas, pela abrangência suas pautas e também pelo acabamento de seus textos. De uns tempos pra cá, no entanto, os feeds que recebo do El País já não vêm titulados pelo assunto, mas pelos profissionais que assinam as diversas matérias. Uma profusão sem limites de articulistas que personalizam radicalmente o jornal, não exatamente no sentido da autoria à qual me referi acima, mas numa perspectiva um pouco na contra-mão da reportagem e da apuração noticiosa. Autoria de mais não significa resgate da centralidade autoral; pode significar simplesmente um recurso de marketing e apuração de menos.
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Um comentário:

Marcos Paulo da Silva disse...

Olá Faro,
Gostei bastante deste post e lembrei particularmente dele quando recebi pela lista da Compós um texto da Ivana Bentes sobre a crise da "crítica especializada" tradicional no jornalismo cultural: http://www.trezentos.blog.br/?p=6468.
Pelo post, me parece que a análise que você pretende vai bem mais fundo na questão, abordando a questão da "descentralidade da autoria". Trata-se, em minha opinião de parca relevância, de um assunto profundamente importante de ser debatido, sobretudo entre aqueles preocupados com em discutir academicamente o jornalismo. Vou aguardar curioso o teu artigo.
No mais, a vida vai seguindo bem aqui nos EUA. Tenho frequentado a biblioteca e digitalizado alguns textos que podem me ser importantes no futuro. Ontem comprei um livro interessante do Bourdieu, mas ele ainda nao chegou pelo correio: "Outline of a theory of practice". Pelo que vi, acredito que possa ser interessante para minha pesquisa.
Ah, também tenho acompanhado diariamente na imprensa algumas discussões sobre os protestos em Wall Street. Tenho particularmente me "divertido" ouvindo rádio antes de dormir, quando me deparo com os argumentos mais esdrúxulos dos radialistas conservadores (algumas colocações impensáveis para qualquer pessoa que tenha um mínimo de juízo e posicionamento crítico sobre o que acontece no mundo). Wall Street tem sido, de fato, um paradoxo simbólico para a sociedade americana.
É isso! Vamos nos falando!
Um grande abraço.
Marcos