domingo, 18 de setembro de 2011

Espaços de soberania

Quais as marcas que nos ameaçam?
Quem foi que disse que esse é o setor da economia nacional que deve ser protegido da concorrência das marcas estrangeiras? O governo determinou assim quando nesta semana elevou o IPI dos automóveis importados. A justificativa é ingênua porque os importados, que não representam mais que 6% do mercado interno de automóveis, nunca fizeram qualquer sombra para as montadoras instaladas aqui. Portanto, não será essa medida apenas circunstancial que vai consolidar um setor que só não investe em tecnologia porque esbanja lucros e só não é mais agressivo na disputa do mercado porque prefere fazer o lobby que acabou fazendo para que a medida do IPI fosse tomada. 

A rigor, portanto, não percebo qualquer sinal de soberania na iniciativa do governo federal, se é que ela, além disso, não vai nos encher de problemas na Organização Mundial do Comércio... e levar-nos a um recuo humilhante. Particularmente, gostaria que uma bravata como essa se manifestasse em relação aos bancos, aos usineiros, e especialmente na elaboração de um projeto de desenvolvimento industrial que não representasse o agravamento da dependência tecnológica que mantemos em relação ao núcleo dos países mais ricos do sistema capitalista. Quem é que se ilude com a montagem de iPads? Torço para estar enganado, mas estamos nos tornando um enclave de mão de obra barata para onde se dirigem as marcas da globalização. O México, por exemplo, escolheu esse caminho. O resultado é o que se vê: praticamente desapareceu como nação soberana.

Mas a mesma semana que vê o governo caminhar nessa direção equivocada - vê também surgir na área do ensino superior uma demonstração do gigantesco obstáculo que nos separa do desenvolvimento: a aquisição da Uniban pela Rede Anhanguera. Não tenho nada conta o desaparecimento da Uniban. Ela já vai tarde,  tal é o papel que teve na educação universitária brasileira como paradigma da desqualificação, no âmbito do ensino e também no âmbito do desrespeito aos seus professores. Espantoso mesmo é observar como é que um trambique desses conseguiu sobreviver até hoje.

Mas se não tenho nada contra o sumiço da Uniban, tenho opinião completamente diferente em relação à sua compra pela Anhanguera. Explico: a operação cria em São Paulo, mas com efeitos nocivos em todo o país, um nível de concentração econômica no setor do ensino privado que reduz muito a possibilidade de que o Estado - aí sim - mantenha sua soberania na Educação e na produção  científica. A transação - que pode até ter recebido injeção de recursos do BNDEs - está mais próxima de uma fusão de frigoríficos do que de instituições de ensino. O ministro Mercadante, apressado em afirmar que o aumento do IPI para os carros importados visa favorecer a importação da mesma tecnologia que agrava nossa dependência, deve ter muito pouco a dizer sobre a nulidade que representa para a ciência no Brasil a existência dessa tal "rede" Anhanguera... caso ele saiba do que estamos falando... É pergunta que não cala: alguém conhece alguma contribuição efetiva, um livro, um artigo, uma descoberta, um evento de alguma relevância que essa empresa trouxe para a Universidade brasileira desde que iniciou sua aventura financeira? Pois agora parece que nos tornamos um pouco mais reféns desse processo.

Em tempo: sugiro a leitura aqui das matérias selecionadas sobre os temas desta postagem.
______________________________

Nenhum comentário: