segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O Enem, mais uma vez...

Todos estamos sendo reprovados
As escolas particulares que se saíram mal no Enem estão faltando com a verdade quando procuram justificar o desempenho sofrível dos seus alunos, em especial aquelas escolas que, nas versões anteriores do exame, ocuparam o pódio de uma suposta "educação de qualidade". Segundo alguns de seus responsáveis, o resultado ruim se deve ao fato de que os melhores estudantes desinteressaram-se do exame e não o realizaram porque as universidades públicas estaduais de São Paulo não levam em conta nos vestibulares a nota obtida no Enem. Esse "detalhe" foi o que provocou, de acordo com as alegações dos próprios estabelecimentos, 68% de declínio médio nas notas, fato que deixou apenas 4 escolas paulistas no ranking das melhores.

É difícil acreditar nisso e penso que os repórteres que estão às voltas com as matérias que falam do assunto deveriam ir a fundo na apuração dos números que comprovem essa fuga dos bons alunos porque uma ou outra interpretação é de grande interesse, especialmente se levamos em conta a sistemática campanha contra o ensino público que os resultados do Enem favorecem. De antemão, julgo que há um elemento que me parece inquestionável: a grande maioria dos estudantes que apostam suas fichas nos bons cursos superiores nunca as colocam exclusivamente em escolas públicas, muito menos apenas nas 3 melhores universidades estaduais que não contabilizavam a nota do exame (a USP, a UNICAMP e a UNESP), já que sempre equilibram suas escolhas com cursos de boas instituições particulares ou federais (PUC, FGV, Santa Casa, UNIFESP etc), o que os levaria ao Enem de qualquer forma.

O fato de que as escolas ditas de "elite" se apressem em encontrar uma explicação externa a elas próprias para justificar esse declínio pode apontar para uma série de desdobramentos. O primeiro, que é grave: a nota mais baixa mostra um ensino impotente para acompanhar o rigor crescente do Enem, se é que esse rigor existe. O segundo, tão grave quanto o primeiro: o Enem não mede o ensino de qualidade que essas ecolas oferecem, portanto é inócuo para sua clientela. O terceiro, mais grave que os anteriores somados: o ensino médio virou mesmo uma disputa de mercado e as escolas que negociam com ele não estão muito preocupadas com qualquer outro parâmetro que não seja o de sua rentabilidade.

Os jornais, que se apressaram em desbancar o ensino público mais uma vez - embora esse declínio tenha sido bem menos acentuado do que o do ensino privado (fato que a Folha de S. Paulo não deixa claro em sua matéria) - ou em aceitar sem critérios de apuração as alegações dos donos das escolas da "1a. linha", é que deveriam investigar isso. Seja como for, essa guerra de marcas que ocorre a cada novo resultado do Enem, mostra bem, na minha opinião, para que serve um ranqueamento dessa natureza: ele nem aproveita ao aluno nem à Educação. É um exame que mensura desempenho e, como tal, pedagogicamente é criticado no mundo inteiro. Aqui entre nós serve para agregar valor ao capital...
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