quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Intolerância na terra da cordialidade

A sociabilidade da inquietação e do rancor em cada notícia
Ouvi há alguns dias uma entrevista com um desses mega-empresários cuja fortuna rápida foi erguida nos anos obscuros do "milagre brasileiro". Lá pelas tantas o repórter quis saber a opinião do entrevistado sobre os episódios de corrupção que povoam o noticiário dos jornais e das revistas. A resposta, como se imagina, foi a mais politicamente correta possível: "a corrupção é condenável - disse -, mas ela não é maior que a determinação pacífica do povo brasileiro em atingir o desenvolvimento". Pura balela retórica no meio de enunciados que revelam despreparo (do repórter e da fonte), um lugar comum sem tamanho ao qual certamente se seguiria - se desse tempo de que tudo fosse dito - a ladainha da "redução do custo Brasil", "a queda na taxa de juros", "a reforma fiscal", o "fim dos encargos sociais na folha de pagamentos" etc etc etc.

Penso o Brasil está vivendo uma era de platitudes discursivas ao lado de uma certa irracionalidade na identificação dos nossos déficits de sociabilidade. Talvez não seja o caso de espantos de qualquer tipo, mas se vem da própria presidente da República o apelo para o consumo a qualquer custo - uma elegia ao desperdício individual e uma subliminar valorização do arrivismo como virtude do cotidiano, não dá para esperar que o imaginário coletivo reaja com cordialidade alguma. Ao contrário.

Tudo isso a propósito desse episódio que culminou com o linchamento do motorista do ônibus que, depois de ter passado mal ao volante, atingiu carros, motos e atropelou um homem. A massa que se reunia num baile funk nas proximidades do local não teve dúvidas: avançou sobre o ônibus, arrancou para fora o "responsável" pelo acidente e o matou de forma inapelável. Agiu com base na lei do cão, irrefletida e deixando vazar pelos poros sentimentos primitivos soltos por aí. Não sei se é a mídia que anda contribuindo para que esse espírito fique cada vez mais aguçado ou se é essa correria que cada um faz para escapar de alguma sombra que nos persegue, mas dá para perceber que há uma tensão latente prestes a explodir em cada faixa de pedestre, em cada fila de idosos, em cada movimento "ocupe qualquer coisa". Sei não...

Nathan Zuckerman, o alter-ego do escritor norteamericano Philip Roth, indagado no romance Fantasma sai de cena sobre o que fazer diante da perda de referências humanistas e liberais na era Bush, responde que o longo discurso não adianta mais nada e que a única solução é o "esquecimento", isto é, a indiferença, venha ela da senilidade ou de uma postura deliberada e ideologicamente indiferente. Pode ser que a sociedade brasileira esteja um pouco mais perto disso...
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